Pesquisa revela que mulheres negras são as principais afetadas pelo desalento no Brasil

População negra, mulheres e nordestinos são a maioria entre pessoas que desistiram de procurar emprego no país

Pesquisa revela que mulheres negras são as principais afetadas pelo desalento no Brasil

Por Matheus Souza

Um levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE) revelou que a população negra, mulheres, nordestinos e nortistas lideram o desalento – pessoas que desistiram de procurar emprego por falta de oportunidades – no mercado de trabalho brasileiro. 

Segundo o estudo, a taxa de desalento caiu de 5,5% no primeiro trimestre de 2021 para 2,4% no terceiro trimestre de 2025, porém o perfil das pessoas afetadas pelo problema não mudou no período. Entre os fatores que contribuem para o cenário estão a baixa oferta de vagas formais, a informalidade persistente e a sobrecarga de trabalho doméstico não remunerado.

O cenário mostra como as mulheres negras são especialmente afetadas dentro desse cenário, já que elas enfrentam as maiores taxas de desemprego, menor renda média e maior presença em ocupações informais, como o serviço doméstico, que acaba por dificultar a procura por um emprego formal. 

A Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea) e o Ministério da Igualdade Racial (MIR), realizada no ano passado, constatou que entre as pessoas que declaram realizar trabalho doméstico e/ou de cuidados remunerados no Brasil, 69,9% são mulheres negras. 

O Ipea também levantou dados sobre o desalento entre mulheres negras, que aparecem com 4,6% na condição, contra 2,1% das brancas e 2,8% dos homens negros. As mulheres negras desalentadas representam 45% do total, enquanto entre as brancas o percentual é de 32%. Para os homens negros, o desalento corresponde a 43% dos desocupados.

Norte e Nordeste

Em 2021 a região Nordeste registrava taxa de 12%, mais que o dobro da média nacional. O levantamento aponta que o número é resultado do baixo desenvolvimento econômico e de políticas públicas insuficientes para absorver a mão de obra local. No mesmo período, o Norte aparecia com 9%. Em 2025, o indicador caiu para 6% no Nordeste e 2,9% no Norte, mas ambas as regiões seguiram acima da média nacional de 2,4%.

Em números absolutos, 17% dos desalentados do país estavam no Maranhão no terceiro trimestre de 2025, o equivalente a 453 mil pessoas. A Bahia aparece em seguida, com 298 mil, ou 11% do total. São Paulo ocupou a terceira posição, com 259 mil, cerca de 10%.

O estudo aponta que questões raciais, de gênero e território se entrelaçam, dificultando ainda mais a inserção de pessoas atravessadas por essas pautas no mercado de trabalho. A falta de políticas específicas de inclusão produtiva, qualificação profissional de qualidade e combate à discriminação, perpetua o cenário entre os grupos mais vulnerabilizados.