Bela, em “Por Você”, e a naturalização de mulheres pretas ocupando espaços de poder
Ao longo de décadas, falar sobre representação de mulheres pretas na televisão brasileira significou discutir a ausência delas de determinados espaços ou questionar a forma em que eram representadas. Porém, quando uma personagem preta chega a uma posição de prestígio profissional, o questionamento se torna: o que muda quando mulheres negras passam a ser vistas […] O post Bela, em “Por Você”, e a naturalização de mulheres pretas ocupando espaços de poder apareceu primeiro em Mundo Negro.
Ao longo de décadas, falar sobre representação de mulheres pretas na televisão brasileira significou discutir a ausência delas de determinados espaços ou questionar a forma em que eram representadas. Porém, quando uma personagem preta chega a uma posição de prestígio profissional, o questionamento se torna: o que muda quando mulheres negras passam a ser vistas como protagonistas em espaços de poder?
É nesse território que se insere Bela, personagem de Sheron Menezzes em Por Você, novela das 19h da TV Globo. Ginecologista e obstetra, a personagem construiu uma carreira na Medicina e fez da profissão uma parte central de sua identidade. Antes de assumir os cuidados dos quatro filhos da melhor amiga Juli (Lucy Ramos), Bela já tinha uma trajetória profissional consolidada.
A escolha do perfil da personagem chama atenção justamente porque sua profissão não aparece como um detalhe da trama. Bela é apresentada como uma médica especializada, reconhecida por sua atuação e inserida em um ambiente de decisão profissional. No Hospital & Maternidade Luz, ela também defende projetos relacionados à ampliação do atendimento às mulheres e à saúde acessível a todas, independentemente da classe social.
A personagem ainda ocupa um lugar que historicamente pareceu distante do cotidiano de mulheres pretas na televisão: o de uma profissional altamente especializada, cuja competência não precisa ser explicada pela narrativa a partir de uma trajetória de privação.
Quando a profissão não é coadjuvante
Na história de Bela, a carreira não funciona como pano de fundo, mas sim como parte crucial de seu desenvolvimento no decorrer da trama.
Criada na Vila Maravilha e filha de Domingas (Edlane Silva), uma empregada doméstica, Bela decidiu percorrer um caminho diferente daquele vivido pela mãe, deixando a comunidade onde cresceu para estudar e construir sua carreira na Medicina. Na juventude, chegou a frequentar a mesma faculdade que Vanessa (Alinne Moraes), herdeira do hospital onde trabalha, e passou a se destacar academicamente.
Esse percurso acrescenta uma camada importante à representação: Bela não chega ao hospital para ocupar um espaço simbólico. Ela se especializou e dedicou-se a construir uma trajetória profissional própria.
Em entrevista ao Mundo Negro, os autores Dino Cantelli e Juliana Peres explicam que a construção da personagem partiu do desejo de criar uma protagonista com força própria, cujas questões raciais estivessem presentes sem resumir sua história. Para isso, a equipe também ouviu médicas negras durante o processo de pesquisa.
“A preocupação inicial no processo de construção da Bela era que ela fosse uma protagonista cativante, forte, com questões contemporâneas e que sempre levasse a trama para frente.”, afirmam os autores.
A escolha também se manifesta na maneira como a personagem ocupa o hospital. Ao Mundo Negro, o diretor artístico André Luiz Câmara explica que a direção buscou construir essa presença sem sugerir que Bela precisasse justificar seu lugar naquele ambiente.
“Bela é uma médica obstetra de referência, uma profissional respeitada, que estudou e trabalhou fora do país, e quando ela entra naquele hospital não queríamos que a imagem sugerisse que ela estava entrando num espaço ao qual precisasse provar que pertencia. Ela pertence àquele lugar. […] Para mim, existe uma força muito grande em ver uma mulher preta ocupando esse espaço sem que a narrativa precise transformar sua presença ali permanentemente em uma exceção.”, afirma.
Segundo o diretor, essa percepção é construída pela dramaturgia, pela interpretação de Sheron Menezzes e pelas escolhas visuais, desde a maneira como Bela ocupa o quadro até como toma decisões e é escutada pelos demais profissionais.
A diferença aparece também na relação com Vanessa. As duas têm formação médica, mas ocupam lugares sociais distintos dentro da instituição. Enquanto Vanessa é herdeira do Hospital & Maternidade Luz e assume sua administração, Bela constrói seu reconhecimento a partir de sua ética e de sua atuação profissional.
O que os dados dizem sobre mulheres pretas no mercado de trabalho
A presença de Bela ganha outra dimensão quando observada em relação à realidade brasileira.
Dados do IBGE mostram que a população preta e parda ampliou sua presença no ensino superior ao longo das últimas décadas, mas essa mudança não eliminou as diferenças no mercado de trabalho. Em 2021, pessoas pretas ou pardas representavam 53,8% da população ocupada, mas ocupavam 29,5% dos cargos gerenciais, enquanto pessoas brancas correspondiam a 69% desses postos.
A desigualdade também aparece quando gênero e raça são observados conjuntamente. Em levantamento do IBGE sobre estatísticas de gênero, mulheres pretas ou pardas apresentavam uma proporção de conclusão do ensino superior inferior à das mulheres brancas. No recorte de 2016, 10,4% das mulheres pretas ou pardas com 25 anos ou mais tinham ensino superior completo, contra 23,5% das mulheres brancas.
Os números ajudam a dimensionar por que a representação de uma mulher preta em uma profissão de alta especialização exerce um forte impacto cultural: ela amplia o repertório de imagens sobre quem pode ser vista como médica, pesquisadora, executiva, engenheira, advogada ou ocupar qualquer outro espaço de decisão e conhecimento.
Para André Luiz Câmara, essa construção passa pela capacidade que as imagens têm de influenciar a maneira como a sociedade enxerga as possibilidades de futuro. “Eu falo muito que a imagem cria imaginário”, afirma o diretor, que destaca a importância de mostrar Bela exercendo a Medicina com excelência sem deixar de apresentar suas dúvidas, fragilidades, conflitos e contradições.
A autoridade profissional da Bela faz parte dela, mas não a resume.
Para Sheron Menezzes, essa dimensão da personagem está diretamente ligada à representação. Em entrevista ao Gshow, a atriz afirmou que deseja que meninas pretas possam assistir à personagem e visualizar a possibilidade de se tornarem médicas e ocuparem lugares de destaque. Para ela, interpretar Bela também significa mostrar outras possibilidades de futuro para quem se vê na tela.
A fala da atriz encontra respaldo em uma questão já documentada pelas pesquisas: a escolarização da população preta e parda avançou, mas a presença em posições de maior poder e remuneração continua desigual. Em 2018, por exemplo, pessoas pretas ou pardas representavam 54,9% da força de trabalho brasileira, mas ocupavam 29,9% dos cargos gerenciais, segundo o IBGE.
Nesse contexto, o impacto de Bela pode ser observado não pela excepcionalidade de ser uma mulher preta médica, mas pela normalização dessa presença no imaginário televisivo.
Ela consulta pacientes, toma decisões, defende suas ideias e enfrenta conflitos dentro da própria instituição onde trabalha. Sua identidade racial faz parte de quem ela é, mas não é apresentada como limite para sua atuação profissional.
Essa perspectiva também orienta a construção da personagem como alguém que não se limita à carreira. Para André Luiz, a força de Bela está justamente em sua complexidade: “Bela é uma personagem inteira. É médica, mulher, filha, amiga, se apaixona, erra, acerta, sofre, deseja. A autoridade profissional faz parte dela, mas não a resume”.
Outras mulheres, outros lugares de poder
A discussão sobre mulheres pretas em posições de prestígio profissional não fica restrita à Medicina. Elas estão presentes em universidades, empresas, instituições públicas, áreas de tecnologia, comunicação, Direito, ciência, cultura e empreendedorismo. O desafio de representação está também em tornar essas presenças visíveis em posições de liderança, decisão e reconhecimento.
Na trama, a atuação de Bela também se conecta à defesa de um atendimento de saúde acessível a mulheres em situação de vulnerabilidade social. Segundo Dino Cantelli e Juliana Peres, o desejo da médica de contribuir com outras mulheres está ligado à sua própria trajetória, marcada pela ascensão social por meio dos estudos e pelas experiências de sua família e comunidade.
A força de acompanhar a história de Bela, de segunda a sábado, às 19h, na TV Globo, está também em vê-la ocupar esse espaço sem precisar justificar sua presença nele. Para os autores, a repercussão da personagem entre médicas negras reforça a importância dessa representação.
“Mesmo durante as pesquisas, foi muito interessante ver como médicas negras se sentiram representadas pela personagem e estamos vendo uma repercussão muito positiva de Bela entre o nosso público, então para nós esses fatores são ganhos que merecem ser celebrados”, afirmam Dino Cantelli e Juliana Peres.

Fontes:
O post Bela, em “Por Você”, e a naturalização de mulheres pretas ocupando espaços de poder apareceu primeiro em Mundo Negro.