Capela dos Aflitos reabre e resgata memória negra no centro de São Paulo

Depois de dois anos de restauração, a Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, na Liberdade, voltou a receber celebrações religiosas e visitantes. Mais do que a reabertura de um templo histórico, o momento representa a retomada de um dos espaços mais importantes da memória negra no centro de São Paulo. Erguida sobre o […] O conteúdo Capela dos Aflitos reabre e resgata memória negra no centro de São Paulo aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Capela dos Aflitos reabre e resgata memória negra no centro de São Paulo

Depois de dois anos de restauração, a Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, na Liberdade, voltou a receber celebrações religiosas e visitantes. Mais do que a reabertura de um templo histórico, o momento representa a retomada de um dos espaços mais importantes da memória negra no centro de São Paulo.

Erguida sobre o antigo Cemitério dos Aflitos, criado em 1775, a capela carrega uma história marcada pela dor, pela fé e pela resistência. Ali eram enterradas pessoas negras escravizadas, libertas, indígenas, pobres e condenadas à morte no antigo Campo da Forca, região onde hoje fica a Praça da Liberdade.

A restauração começou em abril de 2025 e recebeu investimento de mais de R$ 3,2 milhões, contemplando preservação, acessibilidade, modernização e revitalização do espaço histórico. Durante as obras, escavações revelaram vestígios humanos de pessoas sepultadas no antigo cemitério, reforçando a importância arqueológica e simbólica do local.

A reabertura reuniu comunidade, movimentos negros e representantes indígenas, em um gesto que reafirma a necessidade de preservar lugares que ajudam a contar uma história muitas vezes apagada da narrativa oficial da cidade. A Capela dos Aflitos não é apenas um prédio religioso: é um território de memória, ancestralidade e reparação.

O espaço também está ligado à história de Chaguinhas, como ficou conhecido Francisco José das Chagas, cabo negro executado em 1821 após participar de uma revolta por salários atrasados e igualdade no pagamento entre militares brasileiros e portugueses. Antes da execução, ele teria ficado preso na capela, tornando-se depois uma figura de devoção popular na região da Liberdade.

Mesmo reaberta, a restauração ainda não terminou completamente. O altar-mor, os retábulos laterais e imagens históricas seguem em processo de recuperação. Também está prevista a construção do Memorial dos Aflitos, que deverá fortalecer ainda mais a preservação da história negra e indígena no bairro.

Em uma São Paulo que tantas vezes corre para apagar seus próprios rastros, a reabertura da Capela dos Aflitos é um lembrete poderoso: a cidade também foi construída por corpos negros, por fé negra, por sofrimento negro e por resistência negra.

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