Os 100 anos de Milton Santos

Milton Almeida dos Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, no sertão da Bahia. Filho de professores primários, aprendeu a ler aos quatro anos e, aos oito, já dava aulas de geografia e aritmética para os colegas. Formou-se em Direito pela UFBA em 1948, mas não seguiu a advocacia: a […] O conteúdo Os 100 anos de Milton Santos aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Os 100 anos de Milton Santos

Milton Almeida dos Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, no sertão da Bahia. Filho de professores primários, aprendeu a ler aos quatro anos e, aos oito, já dava aulas de geografia e aritmética para os colegas. Formou-se em Direito pela UFBA em 1948, mas não seguiu a advocacia: a paixão pela geografia falou mais alto. Tornou-se professor em Ilhéus e Salvador, escreveu para o jornal _A Tarde_ e doutorou-se em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França, em 1958, com a tese _O Centro da Cidade de Salvador_. Ainda jovem, surpreendeu o país com obras como _O Povoamento da Bahia_ e _Zona do Cacau_, anunciando um geógrafo que pensava o território a partir das desigualdades brasileiras.

O golpe de 1964 interrompeu sua trajetória no Brasil. Preso, depois exilado, Milton transformou o desterro em universidade-mundo. Lecionou na França, Canadá, Estados Unidos, Peru, Venezuela, Tanzânia e Inglaterra. Foi professor no MIT, na Universidade de Toronto, na Sorbonne e em Dar es Salaam. No exílio, publicou livros fundamentais como _Les villes du Tiers Monde_ e _L’espace partagé_, que projetaram sua voz como uma das mais originais da geografia crítica internacional. Voltou ao Brasil em 1977 e, após anos de resistência, conquistou a cátedra de Geografia Humana na UFRJ e depois na USP, onde se tornaria Professor Emérito.

Milton Santos revolucionou a geografia ao colocar o espaço como instância social ativa, inseparável da técnica, do tempo e da política. Criou conceitos que viraram ferramentas para entender o Brasil e o mundo: “espaço banal”, “meio técnico-científico-informacional”, “globalização perversa” e “território usado”. Em _Por uma Geografia Nova_, de 1978, rompeu com a geografia descritiva e propôs uma ciência comprometida com a cidadania. Vieram depois _O Espaço Dividido_, _A Urbanização Brasileira_, _Técnica, Espaço, Tempo_, _A Natureza do Espaço_ e _Por uma Outra Globalização_, obras que formaram gerações e deslocaram o eixo do pensamento geográfico para o Sul global.

Seu reconhecimento ultrapassou fronteiras. Em 1994, recebeu o Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Oscar da Geografia”, tornando-se o único latino-americano a conquistar a honraria no século XX. Foi também Doutor Honoris Causa em 12 universidades brasileiras e sete estrangeiras. Mesmo laureado, manteve a coerência: usou os palcos internacionais para denunciar a “globalização como fábula” e defender uma outra globalização, mais humana. Afável e combativo, dizia que “a maior coragem, hoje, é pensar” – e pensou até o fim.

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