Movimento é prevenção e tratamento. E isso não deveria ser privilégio

Por Caroline Araujo Amorim, cofundadora HHWC Todo outubro a gente fala de mamografia, e com razão. Desde dezembro de 2025, a Lei 15.284 garante o exame pelo SUS a todas as mulheres a partir dos 40 anos, mesmo sem sintoma. Entre 50 e 74 anos, o Ministério da Saúde orienta fazer a mamografia a cada […] O post Movimento é prevenção e tratamento. E isso não deveria ser privilégio apareceu primeiro em Mundo Negro.

Movimento é prevenção e tratamento. E isso não deveria ser privilégio

Por Caroline Araujo Amorim, cofundadora HHWC

Todo outubro a gente fala de mamografia, e com razão. Desde dezembro de 2025, a Lei 15.284 garante o exame pelo SUS a todas as mulheres a partir dos 40 anos, mesmo sem sintoma. Entre 50 e 74 anos, o Ministério da Saúde orienta fazer a mamografia a cada dois anos; entre 40 e 49, a mulher pode pedir depois de conversar com o profissional sobre riscos e benefícios.

O caminho é a Unidade Básica de Saúde mais perto de casa. Leve documento com foto e o cartão do SUS, marque uma consulta e diga que quer fazer a mamografia.

E o toque? O INCA não recomenda mais ensinar o autoexame como forma de rastreamento, porque ele mostrou pouca efetividade. Mas conhecer o próprio corpo continua valendo: caroço, pele repuxada ou com aspecto de casca de laranja, mudança no bico do peito, saída de líquido ou caroço na axila são motivo para procurar a unidade. Nem todo sinal é câncer, mas todo sinal merece ser avaliado.

Mas tem um assunto que quase nunca aparece nas campanhas: o exercício físico. E ele está presente em todas as fases da história de uma mulher com câncer de mama, antes, durante e depois do diagnóstico.

Os exames são indispensáveis e precisam acontecer. A mamografia encontra o tumor mais cedo, e isso salva vidas. O exercício entra em outra frente, que caminha junto com os exames: diminuir a chance de a doença surgir. O exercício não substitui a mamografia.

O comitê que revisou as diretrizes de atividade física dos Estados Unidos em 2018 analisou dezenas de revisões científicas e concluiu que há evidência forte de que mulheres mais ativas têm de 10% a 20% menos risco de câncer de mama. Não é uma proteção total, mas é consistente, e aparece em estudo após estudo.

Por que isso acontece ainda está sendo estudado. As explicações mais aceitas passam pelo que o exercício faz no corpo como um todo: ajuda a controlar a gordura corporal, melhora a forma como o corpo usa a insulina, reduz inflamação e diminui os níveis de alguns hormônios ligados ao crescimento de certos tumores de mama.

Preciso dizer uma coisa com todas as letras: exercício diminui o risco, mas não zera. Mulher ativa também tem câncer de mama, e ninguém adoece por culpa própria.

Depois do diagnóstico, a conversa muda, e muda muito. Por anos, quem recebia a notícia ouvia que precisava descansar. Hoje sabemos que o repouso em excesso cobra um preço alto: o corpo perde força, o cansaço aumenta e a volta à rotina fica mais difícil.

Aqui a evidência é ainda mais forte, porque vem de ensaios clínicos, aqueles estudos em que as pacientes são sorteadas para treinar ou não. Uma revisão Cochrane de 2016, considerada padrão de qualidade na saúde, reuniu esses ensaios e mostrou que o exercício feito durante a quimioterapia e a radioterapia reduz a fadiga e melhora o condicionamento físico.

E a fadiga do câncer não é um cansaço comum, que passa com uma noite de sono. É um esgotamento que atrapalha o trabalho, o cuidado com a casa e com os filhos. Diminuir isso faz diferença real na vida de uma mulher.

Foi com base em evidências assim que, em 2019, o Colégio Americano de Medicina do Esporte passou a orientar que pacientes com câncer evitem a inatividade. Em 2022, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica foi além e passou a dizer que os oncologistas devem recomendar exercício aeróbico e de força durante o tratamento. O verbo é “devem”.

Também há o depois. Após a cirurgia ou a radioterapia, algumas mulheres ficam com o braço inchado do lado operado. Isso acontece porque os gânglios da axila, que ajudam a drenar o líquido do braço, foram retirados ou atingidos pelo tratamento. Esse inchaço tem nome: linfedema.

Por medo dele, muita mulher ouve que nunca mais pode fazer força com aquele braço. Não é verdade. Um ensaio publicado no New England Journal of Medicine mostrou que o treino de força supervisionado, com carga aumentando aos poucos, não piorou o linfedema e ainda reduziu as crises. Uma revisão de 2020, com 29 estudos, chegou à mesma conclusão.

Isso muda a vida de quem precisa carregar a sacola do mercado, pegar o filho no colo ou trabalhar com os braços. Proibir o movimento, nesse caso, tira autonomia em nome de um cuidado que a ciência não sustenta.

E viver mais? As mulheres mais ativas depois do diagnóstico morrem menos, mas esses dados vêm de estudos que observam pacientes ao longo do tempo. Eles não conseguem separar o efeito do treino do fato de que mulheres mais saudáveis conseguem treinar mais. É uma pista forte, mas ainda não uma prova.

Agora, o que me incomoda. Quase tudo isso foi estudado em mulheres brancas de países ricos. Nos Estados Unidos, o Black Women’s Health Study, com cerca de 44 mil mulheres negras, encontrou cerca de 26% menos câncer de mama entre as mais ativas, mas outro grupo de estudos com afro-americanas encontrou um efeito menor. Com brasileiras, não achei nenhum estudo parecido.

Não existe motivo para pensar que o exercício funciona de outro jeito no corpo de uma mulher negra. A questão é quem consegue chegar até ele.

Mulher negra se mexe o dia inteiro. Sobe ladeira, carrega sacola, faz faxina, pega dois ônibus. Os dados do Vigitel mostram isso: pretas e pardas se movimentam mais no trabalho, em casa e no deslocamento, e menos no lazer. Só que esse movimento cansa e não substitui um treino planejado, com carga, progressão e alguém acompanhando.

No dia a dia, e aqui falo da minha experiência, o que vejo é dupla jornada, falta de dinheiro, medo de andar na rua à noite e bairro sem praça. E a reabilitação com profissional de exercício, justamente a que ajudaria no linfedema e na fadiga, quase sempre fica no particular.

E é aqui que eu acho que o exercício pode ser mais do que tratamento. Ele pode ser porta de entrada.

O exercício pode acontecer na praça, no salão da igreja, na associação de moradores, em grupo e com pouco equipamento. Poucas formas de cuidado são tão baratas e chegam tão perto de casa, e isso faz dele um ótimo caminho para levar as mulheres até a unidade de saúde e até os exames.

Já existe experiência mostrando que isso funciona. Em Chicago, o programa Moving Forward foi desenhado a partir de conversas com mulheres negras que tiveram câncer de mama, com encontros em grupo, exercício supervisionado e acesso gratuito a espaços públicos. Num ensaio clínico publicado em 2017 no Journal of Clinical Oncology, com cerca de 250 mulheres, as que tiveram acompanhamento de perto perderam mais peso e mudaram mais os hábitos do que as que seguiram o programa sozinhas.

O Brasil tem uma estrutura que poderia fazer isso. O Programa Academia da Saúde, do SUS, oferece atividade física orientada por profissionais em espaços públicos ligados às unidades de saúde. O desafio é fazer esse programa chegar, de fato, às mulheres negras da periferia.

Na minha leitura, o caminho é juntar essas duas coisas: grupos de exercício perto de casa, com profissionais preparados e que falem a língua das mulheres negras da periferia. Num grupo assim, dá para treinar força, desfazer o medo do linfedema, lembrar quem está com a mamografia atrasada e criar rede. O exercício vira ponte para o cuidado completo.

E os homens? Pouca gente sabe, mas homem também tem câncer de mama. É raro, cerca de 1% dos casos, segundo o INCA, e justamente por isso costuma ser descoberto tarde. Não existe rastreamento de rotina para eles, e muitos demoram a procurar ajuda por vergonha ou por nem imaginar que isso seja possível. Caroço perto do mamilo ou na axila, mamilo repuxado ou saída de líquido são sinais que merecem avaliação, em qualquer corpo.

Nos Estados Unidos, os homens negros têm a doença com mais frequência que os brancos e vivem menos depois do diagnóstico. E se a pesquisa sobre exercício já deixa as mulheres negras de fora, com os homens o vazio é quase total. Os princípios do treino devem valer para eles também, mas isso ainda é extrapolação, não dado.

Por onde começar? A OMS recomenda de 150 a 300 minutos de atividade moderada por semana, com exercícios de força duas vezes por semana. Parece muito para quem está parada, mas a própria OMS diz que um pouco é melhor do que nada. Para quem está em tratamento, o ideal é um profissional com experiência em oncologia, e hospitais, universidades e unidades de saúde às vezes têm programas gratuitos.

O exercício já é tratado pelas principais diretrizes do mundo como parte da prevenção e do tratamento do câncer de mama. No Brasil, ainda é visto como extra, para quem tem tempo, dinheiro e uma academia por perto. E pode ser justamente a ponte que leva até a mamografia as mulheres que hoje não chegam a ela.

Neste Outubro Rosa, faça seus exames. E, junto com eles, se movimente. Movimento é prevenção e tratamento. E isso não deveria ser privilégio.

Referências

Acesso a todas as fontes em 19 out. 2026.

  1. BRASIL. Lei nº 15.284, de 18 de dezembro de 2025. Altera a Lei nº 11.664, de 29 de abril de 2008, para garantir a realização de mamografia a todas as mulheres a partir dos 40 anos. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/L15284.htm.
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  16. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 719, de 7 de abril de 2011. Institui o Programa Academia da Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt0719_07_04_2011.html.
  17. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DO PARANÁ (COREN-PR). Ministério da Saúde publica Nota Técnica sobre acesso ao exame de mamografia no âmbito do SUS. Disponível em: https://www.corenpr.gov.br/ministerio-da-saude-publica-nota-tecnica-sobre-acesso-ao-exame-de-mamografia-no-ambito-do-sus/. (fonte secundária; localizar a nota técnica original do Ministério da Saúde)
  18. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Confira as recomendações do Ministério da Saúde para o rastreamento do câncer de mama. Disponível em: https://www.inca.gov.br/noticias/confira-recomendacoes-do-ministerio-da-saude-para-o-rastreamento-do-cancer-de-mama.

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