Pessoas negras sĂŁo 86,3% das vĂ­timas da letalidade policial no Brasil, aponta estudo

Levantamento da Rede de ObservatĂłrios da Segurança registra alta de 6,4% nas mortes provocadas por policiais em 2025. A Bahia mais uma vez Ă© o estado com maior nĂșmero de mortes, sendo o Ășnico a superar a marca de mil mortes em um Ășnico ano

Pessoas negras sĂŁo 86,3% das vĂ­timas da letalidade policial no Brasil, aponta estudo

Da Redação

A letalidade policial voltou a crescer no Brasil de acordo com a Rede de ObservatĂłrios da Segurança e manteve um padrĂŁo que atravessa todas as ediçÔes do estudo Pele Alvo: a população negra continua sendo o principal alvo da violĂȘncia de Estado. Dados obtidos junto Ă s secretarias de segurança de Amazonas, Bahia, CearĂĄ, MaranhĂŁo, ParĂĄ, Pernambuco, PiauĂ­, Rio de Janeiro e SĂŁo Paulo mostram que 4.330 pessoas morreram em decorrĂȘncia de intervenção policial em 2025, um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Desse total, entre os casos com informação de raça ou cor, 86,3% das vĂ­timas eram negras, o equivalente a 3.104 pessoas.

Divulgada nesta quarta-feira (01), a sĂ©tima edição do relatĂłrio Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhĂŁ aponta ainda que  64,8% das vĂ­timas eram jovens negros de atĂ© 29 anos. O levantamento evidencia que a violĂȘncia policial permanece concentrada sobre jovens negros moradores de periferias e favelas, reforçando um padrĂŁo de seletividade racial que se repete desde o inĂ­cio da sĂ©rie histĂłrica.

A Rede de ObservatĂłrios avalia que o crescimento da letalidade ocorre em um contexto de fortalecimento de polĂ­ticas de segurança baseadas no confronto armado. Como resultado, quatro estados registraram o maior nĂșmero de mortes por intervenção policial desde o inĂ­cio da sĂ©rie histĂłrica acompanhada pelo estudo. O CearĂĄ chegou a 200 vĂ­timas, o MaranhĂŁo a 142, o ParĂĄ a 632 e SĂŁo Paulo a 834 mortes.

Racismo permanece no centro da política de segurança

AlĂ©m do crescimento das mortes, a pesquisa aponta que o risco de morrer pela ação policial continua sendo profundamente desigual entre negros e brancos. Na mĂ©dia dos nove estados analisados, pessoas negras tĂȘm quatro vezes mais chance de serem mortas pela polĂ­cia do que pessoas brancas. O cĂĄlculo considera as taxas de mortes decorrentes de intervenção policial por 100 mil habitantes em cada grupo racial.

Em Pernambuco, essa diferença chega ao ponto mais extremo: pessoas negras tĂȘm 11 vezes mais risco de morrer em açÔes policiais. No Rio de Janeiro, a probabilidade Ă© seis vezes maior. No CearĂĄ, jovens negros apresentam risco trĂȘs vezes superior ao de jovens brancos.

Segundo a pesquisa, os nĂșmeros demonstram que a letalidade policial nĂŁo pode ser explicada apenas pela dinĂąmica da criminalidade. O estudo afirma que o perfil das vĂ­timas permanece praticamente inalterado ao longo dos anos, evidenciando a permanĂȘncia do racismo nas polĂ­ticas de segurança pĂșblica.

Bahia concentra maior nĂșmero de mortes

Embora quatro estados tenham registrado recordes histĂłricos de letalidade policial em 2025, a Bahia permaneceu como o estado com o maior nĂșmero absoluto de mortes provocadas por agentes de segurança.

Foram 1.570 vĂ­timas ao longo do ano, uma redução em relação ao recorde de 1.702 mortes registrado em 2024, mas ainda o Ășnico estado monitorado a superar a marca de mil mortes em um Ășnico ano.

Os dados tambĂ©m evidenciam o recorte racial da violĂȘncia. Pessoas negras representam 79,7% da população baiana, mas correspondem a 93,9% das vĂ­timas da letalidade policial. 

A concentração territorial também chama atenção. Entre os 417 municípios baianos, apenas 12 responderam por metade das mortes registradas. Além disso, houve vítimas em 346 dos 365 dias do ano, o que significa que a letalidade policial esteve presente durante praticamente todo o ano.

Outros estados

No Amazonas, onde pessoas negras representam 73,7% da população, elas correspondem a 96% dos mortos pela polícia, o maior percentual registrado pela pesquisa. 

Em Pernambuco, negros sĂŁo 65,3% da população e 94,4% das vĂ­timas. No Rio de Janeiro, representam 57,8% dos habitantes, e sĂŁo 89,5% das mortes provocadas por agentes pĂșblicos.

Em São Paulo, onde a população negra corresponde a 40,9% dos moradores, ela representa 64,6% das vítimas da letalidade policial. No Parå, estado que registrou recorde histórico de 632 mortes justamente no ano em que sediou a COP30, a taxa de letalidade contra pessoas negras foi a segunda maior entre todos os estados monitorados.

Segundo o estudo, a repetição desse padrĂŁo demonstra que a violĂȘncia policial nĂŁo atinge a população de forma homogĂȘnea. Ao contrĂĄrio, ela incide de maneira sistemĂĄtica sobre a população negra em todos os contextos analisados.

Dados incompletos dificultam dimensĂŁo do problema

O relatĂłrio tambĂ©m chama atenção para a qualidade das informaçÔes produzidas pelas secretarias estaduais de segurança pĂșblica. MaranhĂŁo e CearĂĄ continuam registrando elevados Ă­ndices de ausĂȘncia de informação sobre raça ou cor das vĂ­timas. Em 54,9% e 57,5% dos casos, respectivamente, esse dado aparece como “nĂŁo informado”.

Segundo a Rede de ObservatĂłrios, a falta dessas informaçÔes impede uma compreensĂŁo mais precisa da dimensĂŁo racial da letalidade policial. Os pesquisadores afirmam que, quando os estados aprimoram o preenchimento dos registros, a desigualdade racial se torna ainda mais evidente, indicando que a omissĂŁo desses dados tambĂ©m contribui para invisibilizar o impacto da violĂȘncia estatal sobre a população negra.