Justiça suspende obras em área do Samba do Cruz após demolição e determina proteção de patrimônio negro e religioso
A luta pela preservação da memória do Samba do Cruz, tradicional espaço de cultura negra localizado na Casa Verde, zona norte de São Paulo, ganhou um novo capítulo. A Justiça Federal determinou a suspensão de qualquer intervenção física no solo e no subsolo do terreno onde funcionava o Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança, […] O conteúdo Justiça suspende obras em área do Samba do Cruz após demolição e determina proteção de patrimônio negro e religioso aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
A luta pela preservação da memória do Samba do Cruz, tradicional espaço de cultura negra localizado na Casa Verde, zona norte de São Paulo, ganhou um novo capítulo. A Justiça Federal determinou a suspensão de qualquer intervenção física no solo e no subsolo do terreno onde funcionava o Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança, demolido no final de julho.
A decisão impede temporariamente a realização de escavações, terraplanagens, fundações, sondagens, drenagens e outras obras capazes de comprometer possíveis vestígios arqueológicos, culturais e religiosos ainda existentes na área.
A medida permanecerá válida até que sejam concluídos estudos técnicos, acompanhados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para avaliar a importância histórica e arqueológica do terreno.
Embora não reverta a demolição das estruturas que já existiam no local, a decisão representa uma vitória parcial para moradores, integrantes do Samba do Cruz, movimentos culturais e organizações que vinham alertando para o risco de apagamento da memória negra construída naquele território ao longo de décadas.
Fundado em 1958, o Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança se consolidou como muito mais do que um espaço destinado ao lazer.
Ali conviviam futebol de várzea, rodas de samba, capoeira, encontros comunitários e manifestações religiosas de matriz africana. Ao longo de mais de seis décadas, o local tornou-se referência de sociabilidade e resistência cultural negra na zona norte da capital paulista.
O espaço chegou a ser reconhecido por integrantes da comunidade como parte de uma espécie de “Pequena África” paulistana, pela concentração de práticas culturais, religiosas e comunitárias ligadas à população negra.
A disputa pelo terreno ganhou força neste ano, quando a Justiça autorizou a reintegração de posse da área, destinada à implantação do futuro Parque Municipal Campo de Marte.
Após meses de batalha judicial, a desocupação foi realizada no dia 29 de julho, quando as construções existentes no local foram demolidas.
Antes disso, entretanto, uma vistoria realizada pelo Iphan já havia identificado indícios de que o terreno poderia possuir relevância arqueológica, cultural e religiosa.
Entre os elementos encontrados estavam estruturas e objetos relacionados às religiões de matriz africana, além de plantas utilizadas em práticas religiosas.
Relatórios técnicos também identificaram a presença de assentamentos sagrados associados a divindades como Exu, Exu Siguidi, Ogum e Exu Ologo, além de áreas destinadas ao cultivo de ervas utilizadas em rituais.
Essas descobertas deram uma nova dimensão à disputa.
O que inicialmente vinha sendo tratado principalmente como uma questão relacionada à posse e utilização do terreno passou a envolver também a possibilidade de destruição de um patrimônio ligado à memória negra e às tradições religiosas afro-brasileiras.
Diante da situação, a Defensoria Pública da União levou o caso à Justiça Federal e solicitou medidas para preservar aquilo que ainda poderia existir na área.
A Justiça reconheceu que a demolição já havia sido realizada e, portanto, não poderia mais ser impedida. A partir de agora, porém, nenhuma nova intervenção capaz de alterar o solo ou o subsolo poderá ocorrer antes da conclusão dos estudos necessários.
A decisão também estabeleceu outras obrigações.
A Prefeitura de São Paulo terá 30 dias para apresentar informações detalhadas sobre os bens retirados durante a desocupação, incluindo a identificação dos objetos, onde estão armazenados e seu estado de conservação.
A determinação é especialmente importante porque entre os materiais retirados do local estavam objetos de valor cultural e religioso para a comunidade.
A Fundação Cultural Palmares também deverá prestar informações sobre o andamento dos procedimentos relacionados ao pedido de reconhecimento da área.
Até o momento, porém, não existe uma decisão definitiva reconhecendo oficialmente o território como quililombola ou determinando seu tombamento. Essas questões ainda dependem de estudos e análises dos órgãos responsáveis.
O episódio levanta uma discussão que ultrapassa os limites da Casa Verde: quem determina aquilo que merece ser reconhecido como patrimônio de uma cidade?
Durante décadas, parte significativa da memória negra brasileira foi construída em lugares que nem sempre receberam proteção oficial.
Terreiros, campos de futebol de várzea, escolas de samba, clubes sociais negros, quintais, centros comunitários e rodas de samba ajudaram a preservar tradições, criar redes de solidariedade e construir identidades coletivas.
Nem sempre esses espaços possuem grandes construções ou aparecem nos cartões-postais das cidades. Isso não significa que tenham menos valor histórico.
A história do Samba do Cruz também encontra paralelo em outros episódios recentes de São Paulo. Durante as obras da Linha 6-Laranja do Metrô, no Bixiga, escavações realizadas próximas à antiga quadra da Vai-Vai revelaram vestígios arqueológicos associados ao Quilombo Saracura, importante território negro da história paulistana.
Casos como esses mostram que, muitas vezes, aquilo que parece ser apenas um terreno guarda camadas de uma história que durante décadas permaneceu invisibilizada.
No Samba do Cruz, a demolição das construções já aconteceu. Parte dessa memória material pode ter sido perdida definitivamente.
Agora, a decisão da Justiça tenta impedir que aquilo que eventualmente permanece debaixo da terra também desapareça.
A discussão não coloca necessariamente desenvolvimento urbano e preservação cultural em lados opostos. Uma cidade pode construir parques, equipamentos públicos e infraestrutura sem ignorar as histórias existentes nos territórios onde essas transformações acontecem.
Para isso, porém, é preciso reconhecer que a memória negra também é patrimônio da cidade.
Mais de seis décadas de samba, futebol, religiosidade, encontros e resistência não desaparecem simplesmente porque uma construção foi derrubada.
O Samba do Cruz pode ter perdido suas paredes, mas a disputa para preservar sua história continua de pé.
O conteúdo Justiça suspende obras em área do Samba do Cruz após demolição e determina proteção de patrimônio negro e religioso aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
