Carta de condução: a procura aumenta, a espera também
Nádia Florêncio fez o exame teórico para obtenção da carta de condução em Março de 2025 e iniciou, a seguir, as aulas práticas. Após retomar a formação, solicitou à escola de condução a marcação do exame prático, mas a resposta demorou.Segundo a candidata, a escola apontou o aumento da procura no período de regresso dos emigrantes e problemas no sistema como algumas das razões para a demora.“Em Novembro pedi que a escola marcasse o exame, mas demorava muito, sobretudo porque no mês seguinte, Dezembro, em que há muitos emigrantes de férias, havia muitos que tinham aulas online e que viriam fazer o exame. Também alegaram que havia problemas no sistema”.O exame foi marcado para 12 de Dezembro de 2025, mas Nádia não conseguiu aprovação. No início de Janeiro, após retomar as aulas práticas, voltou a solicitar uma nova marcação. A candidata conta que foi novamente alertada para a possibilidade de ter de esperar por uma vaga.“Fui informada de que poderia demorar um pouco até conseguir uma nova data porque estava mesmo a demorar a conseguir uma data e que eu teria de esperar”, narra.A nova prova acabou por ser marcada para 13 de Fevereiro, mais de um mês depois do pedido. Como havia passado algum tempo desde as últimas aulas, Nádia decidiu realizar sessões práticas adicionais antes do exame.“Se eu não tivesse comprado novas aulas, talvez não tivesse passado, porque solicitei uma nova data de exame logo nos primeiros dias de Janeiro e consegui uma nova data apenas em Fevereiro”, reflecte.Muita procura e pressão no sistemaA demora sentida por Nádia Florêncio na marcação dos exames não é, segundo as escolas de condução, um caso isolado. O aumento da procura pela habilitação, sobretudo entre jovens e emigrantes que regressam ao país nas férias, tem colocado pressão sobre a capacidade de resposta na cidade da Praia.O representante da Comissão das Escolas de Condução da Praia, Mário Cordeiro, explica que a procura tem aumentado de forma contínua. Actualmente, existem cerca de 80 escolas de condução em Cabo Verde, das quais cerca de 30 estão activas na Praia.“Acho que se chegou à conclusão de que a carta de condução, hoje em dia, é mais do que um luxo, é uma necessidade, não só para quem a tira para si próprio, mas também para quem vai ingressar no mercado de trabalho. Então, posso dizer que hoje em dia a procura é cada vez maior”, salienta.A procura é particularmente elevada entre jovens que pretendem emigrar. Muitos procuram obter a carta antes de deixar Cabo Verde, enquanto outros regressam ao país para tratar do documento. “Mesmo as famílias no estrangeiro aconselham a fazer a carta antes de emigrarem”, completa.França, Luxemburgo e Portugal estão entre os países de onde chegam mais candidatos, sobretudo no Verão e na época do Natal.“Quem já esteve no estrangeiro sabe o valor de uma carta de condução ou o valor de um automóvel na vida de um jovem que vive num lugar de muito frio ou que trabalha em lugares distantes. E há pessoas que estão na Europa e vêm a Cabo Verde fazer a carta de modo a sobreviver melhor no estrangeiro”, explica.Para responder a esta procura, as escolas passaram a disponibilizar aulas teóricas online, permitindo aos emigrantes fazer esta componente nos países onde residem e concentrar em Cabo Verde as aulas práticas e os exames.“As aulas são filmadas de forma profissional e, hoje em dia, praticamente a maioria das escolas de condução na Praia tem aderido a esse sistema porque temos muitos alunos que vivem no estrangeiro”, afirma Cordeiro.Os candidatos regressam, assim, por períodos de cerca de um mês para concluir a formação prática e realizar os exames.“90% dos que vêm conseguem sempre concluir a carta. Tomam a aula online, mas os exames, tanto o teórico como o prático, são feitos presencialmente”.É, contudo, nos períodos de maior afluência que surgem as maiores dificuldades na marcação. A espera pelo exame teórico pode chegar a dois meses na época alta.“Temos alunos emigrantes ao longo do ano, mas no Verão e na época de Natal há sempre mais. E são épocas em que temos mais fragilidades. Nessas alturas, temos uma média de espera de dois meses para um aluno fazer um exame de teórica”, informa.Além da elevada procura, as escolas apontam dificuldades no sistema de marcação dos exames. Mário Cordeiro reconhece que a Direcção-Geral dos Transportes Rodoviários (DGTR) tem procurado melhorar o processo, mas admite que falhas na plataforma principal acabam por contribuir para a demora.“Temos usado um sistema alternativo já que o principal está com algum défice. Tem sido feito de tudo para rectificar. Inclusive há situações em que vamos à DGTR e recebemos assistência até fazerem a marcação ali mesmo”, detalha.1.300 candidatos a exames por mêsNa Praia, as escolas registam, em média, cerca de 1.300 candidatos a exames por mês, segundo Mário Cordeiro. O número de provas é ainda superior quando se contabilizam repetições e candidatos que realizam os exames teórico e prático em períodos próximos.“Ter mais alunos
Nádia Florêncio fez o exame teórico para obtenção da carta de condução em Março de 2025 e iniciou, a seguir, as aulas práticas. Após retomar a formação, solicitou à escola de condução a marcação do exame prático, mas a resposta demorou.
Segundo a candidata, a escola apontou o aumento da procura no período de regresso dos emigrantes e problemas no sistema como algumas das razões para a demora.
“Em Novembro pedi que a escola marcasse o exame, mas demorava muito, sobretudo porque no mês seguinte, Dezembro, em que há muitos emigrantes de férias, havia muitos que tinham aulas online e que viriam fazer o exame. Também alegaram que havia problemas no sistema”.
O exame foi marcado para 12 de Dezembro de 2025, mas Nádia não conseguiu aprovação. No início de Janeiro, após retomar as aulas práticas, voltou a solicitar uma nova marcação. A candidata conta que foi novamente alertada para a possibilidade de ter de esperar por uma vaga.
“Fui informada de que poderia demorar um pouco até conseguir uma nova data porque estava mesmo a demorar a conseguir uma data e que eu teria de esperar”, narra.
A nova prova acabou por ser marcada para 13 de Fevereiro, mais de um mês depois do pedido. Como havia passado algum tempo desde as últimas aulas, Nádia decidiu realizar sessões práticas adicionais antes do exame.
“Se eu não tivesse comprado novas aulas, talvez não tivesse passado, porque solicitei uma nova data de exame logo nos primeiros dias de Janeiro e consegui uma nova data apenas em Fevereiro”, reflecte.
Muita procura e pressão no sistema
A demora sentida por Nádia Florêncio na marcação dos exames não é, segundo as escolas de condução, um caso isolado. O aumento da procura pela habilitação, sobretudo entre jovens e emigrantes que regressam ao país nas férias, tem colocado pressão sobre a capacidade de resposta na cidade da Praia.
O representante da Comissão das Escolas de Condução da Praia, Mário Cordeiro, explica que a procura tem aumentado de forma contínua. Actualmente, existem cerca de 80 escolas de condução em Cabo Verde, das quais cerca de 30 estão activas na Praia.

“Acho que se chegou à conclusão de que a carta de condução, hoje em dia, é mais do que um luxo, é uma necessidade, não só para quem a tira para si próprio, mas também para quem vai ingressar no mercado de trabalho. Então, posso dizer que hoje em dia a procura é cada vez maior”, salienta.
A procura é particularmente elevada entre jovens que pretendem emigrar. Muitos procuram obter a carta antes de deixar Cabo Verde, enquanto outros regressam ao país para tratar do documento. “Mesmo as famílias no estrangeiro aconselham a fazer a carta antes de emigrarem”, completa.
França, Luxemburgo e Portugal estão entre os países de onde chegam mais candidatos, sobretudo no Verão e na época do Natal.
“Quem já esteve no estrangeiro sabe o valor de uma carta de condução ou o valor de um automóvel na vida de um jovem que vive num lugar de muito frio ou que trabalha em lugares distantes. E há pessoas que estão na Europa e vêm a Cabo Verde fazer a carta de modo a sobreviver melhor no estrangeiro”, explica.
Para responder a esta procura, as escolas passaram a disponibilizar aulas teóricas online, permitindo aos emigrantes fazer esta componente nos países onde residem e concentrar em Cabo Verde as aulas práticas e os exames.
“As aulas são filmadas de forma profissional e, hoje em dia, praticamente a maioria das escolas de condução na Praia tem aderido a esse sistema porque temos muitos alunos que vivem no estrangeiro”, afirma Cordeiro.
Os candidatos regressam, assim, por períodos de cerca de um mês para concluir a formação prática e realizar os exames.
“90% dos que vêm conseguem sempre concluir a carta. Tomam a aula online, mas os exames, tanto o teórico como o prático, são feitos presencialmente”.
É, contudo, nos períodos de maior afluência que surgem as maiores dificuldades na marcação. A espera pelo exame teórico pode chegar a dois meses na época alta.
“Temos alunos emigrantes ao longo do ano, mas no Verão e na época de Natal há sempre mais. E são épocas em que temos mais fragilidades. Nessas alturas, temos uma média de espera de dois meses para um aluno fazer um exame de teórica”, informa.
Além da elevada procura, as escolas apontam dificuldades no sistema de marcação dos exames. Mário Cordeiro reconhece que a Direcção-Geral dos Transportes Rodoviários (DGTR) tem procurado melhorar o processo, mas admite que falhas na plataforma principal acabam por contribuir para a demora.
“Temos usado um sistema alternativo já que o principal está com algum défice. Tem sido feito de tudo para rectificar. Inclusive há situações em que vamos à DGTR e recebemos assistência até fazerem a marcação ali mesmo”, detalha.
1.300 candidatos a exames por mês
Na Praia, as escolas registam, em média, cerca de 1.300 candidatos a exames por mês, segundo Mário Cordeiro. O número de provas é ainda superior quando se contabilizam repetições e candidatos que realizam os exames teórico e prático em períodos próximos.
“Ter mais alunos requer mais pedidos de exames. Em média agora, na Praia, temos uma procura de quase 1.300 candidatos a exames mensais na época normal”, sustenta.
A média diária ronda os 43 candidatos. “Temos uma média de 22 candidatos por dia aos exames teóricos, mas há dias em que esse número chega aos 43. Se juntarmos os candidatos aos exames práticos, que são mais cerca de 20, podemos chegar a ter mais de 40 candidatos num único dia”.
Em dias com turmas adicionais, o número pode chegar aos 60 candidatos. “Há dias em que há turmas extras que facultam e podemos falar de até 60 alunos num exame por dia. E está sempre cheio. Uma média de 16 candidatos por escola”.
Para as escolas, o problema não está apenas na formação, mas sobretudo na capacidade de encontrar datas para os candidatos que já estão preparados para realizar as provas. Enquanto aguardam, muitos continuam a frequentar as escolas de condução.
Segundo Mário Cordeiro, actualmente não existe nenhuma escola na Praia onde um candidato consiga marcar imediatamente um exame. A situação é, contudo, mais favorável na componente prática.
“Não há nenhuma escola na Praia hoje em que os alunos consigam marcar logo o exame. Mas há mais respostas nas práticas do que na teórica. É muito mais rápido fazer o exame prático”.

A pressão sobre as escolas é ainda agravada pela saída de instrutores para o estrangeiro, o que reduz o número de profissionais disponíveis para assegurar a formação prática dos candidatos.
Boa Vista pede examinador permanente
Na Boa Vista, onde existem três escolas de condução, a realização dos exames continua dependente da deslocação de examinadores da Praia. Victor Cruz, da Escola de Condução Boa Vista, considera que a frequência das provas melhorou, mas continua insuficiente para responder à procura.
“Antes os exames na ilha eram a cada seis meses e agora são a cada dois meses”, explica, referindo que os examinadores se deslocam à ilha apenas por alguns dias, obrigando as escolas a concentrar os candidatos nesses períodos.
As escolas mantêm alunos preparados para exame, mas não conseguem prever com regularidade quando terão uma nova oportunidade. Ao mesmo tempo, continuam a suportar despesas permanentes.
“Temos escolas bem instaladas. E nós, para abrir uma escola, recorremos a financiamento do banco e o banco, na altura de cobrar, não quer saber se marcamos ou não os exames”.

Credito Foto: Depositphotos_99313680_XL
Este ano, a Boa Vista já recebeu quatro períodos de exames, estando previstas mais duas deslocações, em Outubro e Dezembro. Para Victor Cruz, uma solução mais permanente seria a instalação de uma delegação da DGTR na ilha, onde, além das cartas de condução, existe uma série de serviços ligados ao sector automóvel.
“Todas as ilhas têm a sua própria delegação. E, ao falar da DGTR, estamos a falar de serviços em geral, registo de automóvel, fiscalização, carros a fazer matrículas, licenças e alvarás, rent-a-car, etc. A carta de condução é um documento fundamental que até é exigido para obter emprego”, argumenta.
Na sua perspectiva, a irregularidade dos exames afecta também a criação de emprego. A falta de candidatos em fluxo regular dificulta a manutenção de instrutores e impede a escola de aproveitar novas oportunidades.
“Queremos dar oportunidades de trabalho a instrutores formados, mas não conseguimos por causa dessa dificuldade dos exames”.
A limitação das datas afecta ainda emigrantes interessados em fazer a formação na ilha. A escola tem recebido pedidos, mas evita assumir esse compromisso devido ao intervalo entre exames.
“Não vamos aceitar esse compromisso porque, se a pessoa reprovar, ao invés de esperar mais dez dias, como acontece na Praia, terá de esperar dois meses para realizar outro exame”, explica.
A diferença em relação à capital também leva alguns residentes da Boa Vista a deslocarem-se à Praia para concluir o processo mais rapidamente.
“Há pessoas desta ilha que vão fazer a carta na Praia e, quando regressam, encontram colegas ainda nas aulas sem ideia de fazer exame”.
O Expresso das Ilhas falou ainda com escolas de condução do Maio que, embora tenham optado por não gravar a entrevista, confirmaram enfrentar dificuldades semelhantes.
ADECO defende que reclamações devem ser formalizadas
A Associação para a Defesa do Consumidor (ADECO) diz ter conhecimento de reclamações relacionadas com a demora na marcação dos exames de condução e na emissão das cartas, sobretudo nas ilhas onde a Direcção-Geral dos Transportes Rodoviários (DGTR) não dispõe de presença permanente.
Segundo o presidente da ADECO, Nelson Faria, embora não tenham sido apresentadas reclamações formais à associação, existem relatos de candidatos que enfrentam longas esperas tanto para realizar os exames como para receber o documento definitivo.
“Nós não temos recebido reclamações formais. Entretanto, nós temos conhecimento e, formalmente, já nos foi passado um conjunto de reclamações neste sentido, pelos dois motivos”, afirma ao Expresso das Ilhas.
A associação chama ainda a atenção para os casos de pessoas que permanecem durante meses com documentos provisórios. Segundo Nelson Faria, há situações de candidatos que aguardam seis meses ou até um ano pela carta definitiva, o que pode criar constrangimentos, nomeadamente para quem pretende viajar ou deixar o país.
Para a ADECO, quando a escola de condução cumpre a formação e prepara o candidato, a responsabilidade pela demora na marcação do exame passa a ser da entidade competente.
“Se a escola de condução cumprir com todas as suas responsabilidades, nomeadamente na parte formativa, na parte da preparação do candidato, a responsabilidade não recai sobre a escola de condução e recai, sim, sobre a DGTR relativamente à marcação”, sustenta.
Perante os atrasos, a associação recomenda aos candidatos que deixem de recorrer apenas a reclamações verbais e formalizem as queixas junto da DGTR, através de reclamação por escrito e do livro de reclamações. A formalização, segundo Nelson Faria, permite que as entidades competentes dêem seguimento aos casos nos termos da lei.
A ADECO defende ainda que a DGTR deve apresentar um diagnóstico das pendências, indicando quantas pessoas aguardam exames e cartas, e estabelecer uma calendarização para a resolução dos casos.
“Nós defendemos que, nesta situação em que nos encontramos, a DGTR tem de ter um plano e uma calendarização efectiva para a resolução do problema”, defende.
Entre as medidas apontadas pela associação estão também o reforço da presença da DGTR nas ilhas sem delegação permanente, a melhoria da informação prestada aos utentes e a digitalização dos serviços. A ADECO considera que a DGTR deve ainda divulgar o número de exames e cartas pendentes e indicar prazos previsíveis para a sua resolução.
“Publicitar o livro de reclamações, facultar informação, calendarizar as respostas é o apelo que nós fazemos à DGTR”, resume Nelson Faria.
O Expresso das Ilhas contactou a DGTR para solicitar uma entrevista sobre o assunto, mas, até ao momento, não obteve resposta.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1295 de 23 de Setembro de 2026.