Quem não quer se sentir melhor?
Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil opinar sobre a vida alheia e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil simplesmente permitir que alguém seja dono do próprio corpo. Bastou Vinicius Júnior aparecer com um rosto visivelmente diferente para que milhões de especialistas em estética, identidade racial e até consciência negra surgissem nas redes […] O conteúdo Quem não quer se sentir melhor? aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil opinar sobre a vida alheia e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil simplesmente permitir que alguém seja dono do próprio corpo. Bastou Vinicius Júnior aparecer com um rosto visivelmente diferente para que milhões de especialistas em estética, identidade racial e até consciência negra surgissem nas redes sociais. Em poucas horas, o debate deixou de ser sobre um procedimento estético e passou a ser sobre quem ele é.
E é aí que mora o problema.
Quem não quer se sentir melhor diante do espelho? Quem nunca mudou o corte de cabelo, colocou aparelho nos dentes, clareou os dentes, fez academia, emagreceu, ganhou massa muscular ou simplesmente escolheu uma roupa que aumentasse sua autoestima? Todos nós, em maior ou menor medida, buscamos uma versão de nós mesmos que nos faça sentir mais confiantes. Isso faz parte da condição humana.
No entanto, quando essa transformação acontece com uma pessoa negra, especialmente alguém tão simbólico quanto Vinicius Júnior, a discussão ganha um peso que nem sempre é justo.
Li comentários dizendo que ele “embranqueceu”, que “não parece mais negro”, que “negou as próprias origens”. Outros chegaram ao absurdo de questionar se ele ainda teria legitimidade para denunciar o racismo que enfrenta nos estádios europeus. Como se uma harmonização facial pudesse apagar uma história inteira.
Não pode.
Vinicius Júnior pode até ter mudado o CPF do rosto, como dizem em tom de brincadeira. Mas a cor da pele, o sangue, a trajetória e as marcas do racismo continuam exatamente onde sempre estiveram. O menino que saiu de São Gonçalo continua sendo o mesmo. O jogador que foi chamado de macaco em diversos estádios da Espanha continua sendo o mesmo. O jovem que teve coragem de enfrentar o racismo diante do mundo continua sendo o mesmo.
Nenhuma seringa é capaz de alterar isso.
Há uma diferença enorme entre discutir os padrões estéticos impostos pela sociedade e julgar quem, por decisão própria, escolhe fazer um procedimento. A pressão estética existe e atinge homens e mulheres, famosos e anônimos. A indústria da beleza movimenta bilhões justamente porque vende a promessa de uma versão “melhor” de nós mesmos. É legítimo refletir sobre esse fenômeno. O que não é legítimo é transformar alguém em réu por tentar se sentir mais bonito ou mais confortável com a própria aparência.
Nós negros são julgadas 100% do tempo. Se usamos o cabelo natural, incomodamos. Se alisamos, incomodamos. Se emagrecemos, criticam. Se engordamos, criticam. Se fazemos harmonização, viram alvo. Parece que, para muita gente, o corpo negro nunca pertence a quem o habita; pertence ao julgamento coletivo.
As redes sociais potencializaram essa cultura do tribunal permanente. Todos se sentem autorizados a dar um veredito sobre o rosto, o corpo, a roupa e até a identidade do outro. Perdemos a capacidade de simplesmente respeitar escolhas individuais. Confundimos opinião com sentença e crítica com patrulhamento.
Isso é perigoso.
Porque a identidade negra não está no formato do nariz, na linha da mandíbula ou na projeção do queixo. Ela está na história, na cultura, na memória, nas vivências e, infelizmente, também nas experiências de discriminação que ainda atravessam a vida de milhões de brasileiros. Ser negro não é uma característica que desaparece depois de um procedimento estético.
Talvez o debate mais importante nem seja sobre a harmonização facial de Vinicius Júnior. Talvez seja sobre a nossa dificuldade em aceitar que pessoas negras tenham o mesmo direito que qualquer outra de decidir sobre seus próprios corpos sem precisar prestar contas a ninguém.
No fim das contas, a pergunta continua simples: quem não quer se sentir melhor?
Se essa escolha não apaga sua história, não diminui sua luta e não muda a cor do seu sangue, talvez o problema nunca tenha sido o rosto de Vinicius Júnior. Talvez seja o espelho de quem insiste em enxergar a identidade negra apenas como um corpo pronto para ser julgado.
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