Bailarinos pedem mais políticas públicas e apoios para a dança

Cabo Verde conta com nomes reconhecidos no panorama internacional da dança, como Marlene Monteiro Freitas, Lucieny Kaabral, Mano Preto, da companhia Raiz di Polon, e Djam Neguin, fundador do Festival Kontornu. Outros nomes como Rosy Timas, Bety Fernandes e Ricardo Lima também têm contribuído para o desenvolvimento da dança.O bailarino Mano Preto completa este ano 40 anos de carreira, um percurso que considera “maravilhoso”. “A melhor decisão da minha vida foi ser bailarino”.Fundador da companhia Raiz di Polon, Mano Preto afirma que a dança foi a melhor decisão da sua vida.“A dança escolheu-me. Podia ser arquitecto ou engenheiro, mas a dança foi mais forte. Até hoje não me arrependi”, afirma, acrescentando que ainda pretende continuar ligado à dança por muitos anos.Ao longo destas quatro décadas, destaca experiências como viagens internacionais, espectáculos, o contacto com diferentes culturas e a disciplina adquirida.“Tem sido um desafio constante, pessoas que conheci através da dança, a mesma experiência de vida que acabei por ganhar, disciplina que me deu. Todos os trabalhos me marcaram, porque, pelos anos de Raiz di Polon, somos muito procurados. Às vezes, com uma peça, viajamos com ela dois ou três anos”, sublinha.A companhia Raiz di Polon, que faz dança contemporânea, conta com várias obras no seu repertório, incluindo peças icónicas como “CV Matrix” e “Ruínas”, além de vários solos. Segundo Mano Preto, o grupo privilegia a qualidade em detrimento da produção excessiva.“Por isso, não nos preocupamos só em fazer as peças. Mas sim em fazer cada uma no momento certo, quando esse momento chega até nós. Então essa é a nossa maior felicidade, e não ir muito de forma mais comercial, para correr atrás de criar e criar. Mas sim criar num momento certo, e isso funciona, porque traz mais qualidade de trabalho e com mais calma”, explica.O bailarino recorda ainda que, no início, a dança não era levada a sério em Cabo Verde. O reconhecimento surgiu com as digressões internacionais, à semelhança do que aconteceu com Cesária Évora na música.“Quando começámos a viajar e a representar Cabo Verde em vários países, as pessoas passaram a levar-nos a sério”, afirma.O bailarino disse que nestes 40 anos só teve coisas positivas.“Fui para o curso, tinha bolsa de mérito para estudar, então disse: se for para fazer a dança, vou fazê-lo a sério. Já no primeiro dia tinha um objectivo bem definido. Disse ao pessoal que vamos fazer um grupo a sério. Até viajávamos a fazer dança e as pessoas riam-se e diziam que não era possível”.E hoje, Raiz di Polon tem mais de 30 anos de estrada, vários palcos, muitas peças feitas, com reconhecimento nacional e internacional.Actualmente, a companhia tem vindo a aumentar a sua presença no país, participando em eventos como a abertura do Atlantic Music Expo, os 50 anos do Banco de Cabo Verde e as celebrações da independência nacional.O bailarino relata que, em muitos eventos internacionais, é a Raiz di Polon que vai representar o país.“Raiz di Polon começou a ganhar prémios que eram impensáveis de ganhar. Ganhámos um prémio em que a organização nem levou o hino e a bandeira de Cabo Verde, porque não achava que íamos ganhar, mas ganhámos”.Além de Raiz di Polon, da Escola Dance with Djess, existem outras escolas como a companhia Dança Arte, que ensina dança tradicional, contemporânea, ballet, jazz e hip hop.Presença internacionalMano Preto destaca também a forte presença de artistas cabo-verdianos no cenário internacional da dança, apontando nomes como Marlene Monteiro Freitas, Lucieny Kaabral e Djam Neguin.Além da sua carreira artística, tem investido na formação, tendo passado por escolas nos Estados Unidos, Portugal e outros países, e ministrado workshops em mais de 30 países, incluindo China, Dinamarca, Alemanha, Brasil e Estados Unidos.Marlene Monteiro Freitas é uma das principais referências da dança contemporânea internacional. Natural de São Vicente, reside em Portugal e já foi distinguida com prémios como o Leão de Prata de Veneza (2018) e o Chanel Next Prize (2021). O seu trabalho é conhecido pela intensidade e pela abordagem disruptiva.Por sua vez, Lucieny Kaabral iniciou o seu percurso na companhia Raiz di Polon em 2018 e segue actualmente uma carreira internacional, integrando a companhia Pina Bausch. Também dirige o projecto “Badju Kabu Kaba”.Já Djam Neguin, após várias experiências na dança, criou o Festival Kontornu, que vai na sua quarta edição e se afirma como uma plataforma de criação contemporânea, intercâmbio internacional e valorização das artes performativas africanas e da diáspora.Neguin tem estado mais fora do país para fazer dança, onde tem encontrado mais palco e oportunidade.DesafiosApesar dos avanços, os desafios continuam. A falta de apoio é uma das principais preocupações apontadas pelos bailarinos.Para Djam Neguin, o sector da dança ainda carece de reconhecimento.“Se uma pessoa diz que é bailarino, muitas vezes não é levada a sério”.O também fundador do Festival Kontorn

Bailarinos pedem mais políticas públicas e apoios para a dança

Cabo Verde conta com nomes reconhecidos no panorama internacional da dança, como Marlene Monteiro Freitas, Lucieny Kaabral, Mano Preto, da companhia Raiz di Polon, e Djam Neguin, fundador do Festival Kontornu. Outros nomes como Rosy Timas, Bety Fernandes e Ricardo Lima também têm contribuído para o desenvolvimento da dança.

O bailarino Mano Preto completa este ano 40 anos de carreira, um percurso que considera “maravilhoso”. “A melhor decisão da minha vida foi ser bailarino”.

Fundador da companhia Raiz di Polon, Mano Preto afirma que a dança foi a melhor decisão da sua vida.

“A dança escolheu-me. Podia ser arquitecto ou engenheiro, mas a dança foi mais forte. Até hoje não me arrependi”, afirma, acrescentando que ainda pretende continuar ligado à dança por muitos anos.

Ao longo destas quatro décadas, destaca experiências como viagens internacionais, espectáculos, o contacto com diferentes culturas e a disciplina adquirida.

“Tem sido um desafio constante, pessoas que conheci através da dança, a mesma experiência de vida que acabei por ganhar, disciplina que me deu. Todos os trabalhos me marcaram, porque, pelos anos de Raiz di Polon, somos muito procurados. Às vezes, com uma peça, viajamos com ela dois ou três anos”, sublinha.

A companhia Raiz di Polon, que faz dança contemporânea, conta com várias obras no seu repertório, incluindo peças icónicas como “CV Matrix” e “Ruínas”, além de vários solos. Segundo Mano Preto, o grupo privilegia a qualidade em detrimento da produção excessiva.

“Por isso, não nos preocupamos só em fazer as peças. Mas sim em fazer cada uma no momento certo, quando esse momento chega até nós. Então essa é a nossa maior felicidade, e não ir muito de forma mais comercial, para correr atrás de criar e criar. Mas sim criar num momento certo, e isso funciona, porque traz mais qualidade de trabalho e com mais calma”, explica.

O bailarino recorda ainda que, no início, a dança não era levada a sério em Cabo Verde. O reconhecimento surgiu com as digressões internacionais, à semelhança do que aconteceu com Cesária Évora na música.

“Quando começámos a viajar e a representar Cabo Verde em vários países, as pessoas passaram a levar-nos a sério”, afirma.

O bailarino disse que nestes 40 anos só teve coisas positivas.

“Fui para o curso, tinha bolsa de mérito para estudar, então disse: se for para fazer a dança, vou fazê-lo a sério. Já no primeiro dia tinha um objectivo bem definido. Disse ao pessoal que vamos fazer um grupo a sério. Até viajávamos a fazer dança e as pessoas riam-se e diziam que não era possível”.

E hoje, Raiz di Polon tem mais de 30 anos de estrada, vários palcos, muitas peças feitas, com reconhecimento nacional e internacional.

Actualmente, a companhia tem vindo a aumentar a sua presença no país, participando em eventos como a abertura do Atlantic Music Expo, os 50 anos do Banco de Cabo Verde e as celebrações da independência nacional.

O bailarino relata que, em muitos eventos internacionais, é a Raiz di Polon que vai representar o país.

“Raiz di Polon começou a ganhar prémios que eram impensáveis de ganhar. Ganhámos um prémio em que a organização nem levou o hino e a bandeira de Cabo Verde, porque não achava que íamos ganhar, mas ganhámos”.

Além de Raiz di Polon, da Escola Dance with Djess, existem outras escolas como a companhia Dança Arte, que ensina dança tradicional, contemporânea, ballet, jazz e hip hop.

Presença internacional

Mano Preto destaca também a forte presença de artistas cabo-verdianos no cenário internacional da dança, apontando nomes como Marlene Monteiro Freitas, Lucieny Kaabral e Djam Neguin.

Além da sua carreira artística, tem investido na formação, tendo passado por escolas nos Estados Unidos, Portugal e outros países, e ministrado workshops em mais de 30 países, incluindo China, Dinamarca, Alemanha, Brasil e Estados Unidos.

Marlene Monteiro Freitas é uma das principais referências da dança contemporânea internacional. Natural de São Vicente, reside em Portugal e já foi distinguida com prémios como o Leão de Prata de Veneza (2018) e o Chanel Next Prize (2021). O seu trabalho é conhecido pela intensidade e pela abordagem disruptiva.

Por sua vez, Lucieny Kaabral iniciou o seu percurso na companhia Raiz di Polon em 2018 e segue actualmente uma carreira internacional, integrando a companhia Pina Bausch. Também dirige o projecto “Badju Kabu Kaba”.

Já Djam Neguin, após várias experiências na dança, criou o Festival Kontornu, que vai na sua quarta edição e se afirma como uma plataforma de criação contemporânea, intercâmbio internacional e valorização das artes performativas africanas e da diáspora.

Neguin tem estado mais fora do país para fazer dança, onde tem encontrado mais palco e oportunidade.

Desafios

Apesar dos avanços, os desafios continuam. A falta de apoio é uma das principais preocupações apontadas pelos bailarinos.

Para Djam Neguin, o sector da dança ainda carece de reconhecimento.

“Se uma pessoa diz que é bailarino, muitas vezes não é levada a sério”.

O também fundador do Festival Kontornu defende a criação de políticas públicas específicas para a dança, sublinhando o seu impacto potencial no turismo e na economia.

“A dança pode impactar o turismo e a economia. Precisamos de uma agenda estruturada e de mais investimento”, considera.

Neguin aponta ainda a falta de interesse do sector privado em apoiar iniciativas ligadas à dança, em comparação com a música.

“As empresas não se sentem talvez tão seduzidas a financiar o Festival Kontornu, quase não tivemos nenhuma parceria do privado, porque a dança não é nada especial, não é uma coisa interessante; por isso, preferem patrocinar a música, porque sabem que vai ter multidões”.

Já o produtor da companhia Raiz di Polon, Jeff Hessney, afirma que é difícil viver exclusivamente da dança em Cabo Verde.

“Fazemos porque temos de fazer, para não ficarmos frustrados”.

Segundo Djam Neguin, ser bailarino no país exige coragem.

“Muitos trabalham noutras áreas e fazem dança em meio período. São poucos os que conseguem viver exclusivamente disso”, explica, acrescentando que passa grande parte do tempo no estrangeiro devido à falta de oportunidades no país.

O coreógrafo e bailarino Jerson Lopes Ferreira Fernandes, conhecido por Djess, destaca a necessidade de um espaço adequado para a prática da dança, que permita melhorar o trabalho e acolher mais alunos.

“A falta de apoio das famílias é também um entrave. Muitas vezes organizamos actividades e os pais não acompanham o trabalho dos filhos”, lamenta.

Jerson Lopes Ferreira Fernandes aponta que a dança ainda é pouco valorizada.

“Às vezes, os grupos fazem actividades muito boas, por boa vontade. Não há muitos festivais e mostras de dança. Os grupos trabalham por amor à dança”.

Por outro lado, disse que a dança tem caído muito.

“Hoje em dia temos poucos grupos. Aqui na ilha do Sal há muitos animadores nos hotéis que saíram da minha escola. Muitos formaram-se aqui na dança e estão a fazer animação nos hotéis. Tenho um aluno que hoje é professor de dança em Portugal”.

De lembrar que o Dia Internacional da Dança é assinalado a 29 de Abril. A data foi instituída em 1982 pelo Comité Internacional da Dança da UNESCO. Apesar disso, continua a ser uma efeméride ainda pouco conhecida por grande parte da população.

Para assinalar a data, a companhia Dança Arte apresenta a performance “O Corpo que Canta uma História”. A apresentação acontece esta quarta-feira, 29, no Auditório Nacional, na Cidade da Praia.

Festival Kontornu homenageia Marlene Monteiro Freitas

A 4.ª edição do Festival Kontornu – Festival Internacional de Dança e Artes Performativas de Cabo Verde, que decorre de 11 a 16 de Maio, vai prestar homenagem à coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, uma das mais reconhecidas artistas da cena contemporânea internacional. A programação estará centrada na Cidade da Praia, com uma extensão especial na Cidade Velha e o já emblemático encerramento no Tarrafal de Santiago.

A sessão de abertura será marcada pela remontagem da icónica peça “CV Matrix”, da companhia Raiz di Polon. Em seguida, sobe ao palco uma companhia de dança de Curitiba (Brasil), que apresentará um espectáculo daquele país.

Segundo o director artístico e bailarino Djam Neguin, o Festival Kontornu é dedicado sobretudo à linguagem da dança contemporânea, com espaço também para performance, teatro, circo, linguagens híbridas e danças urbanas.

Nesta edição, o festival reúne cerca de 80 participantes provenientes de vários países, entre artistas, programadores, investigadores e profissionais das artes performativas de Cabo Verde, Portugal, Brasil, Grécia, Suíça, República Dominicana, Espanha, Senegal, França e Itália.

As actividades vão decorrer no Palácio da Cultura Ildo Lobo, no Centro Cultural Português, no Auditório Nacional, na Rua Pedonal e no Kebra Kabana, na Cidade da Praia.

Haverá ainda um dia dedicado às escolas, a ter lugar no Auditório Nacional. A iniciativa contará com a participação do malabarista circense Ricardo Lima, de ascendência cabo-verdiana, que estará em Cabo Verde pela primeira vez e é considerado um dos grandes nomes do malabarismo a nível mundial.

Acção social

Nesta edição, o festival associa-se à campanha “Menos Álcool, Mais Vida”, que celebra 10 anos de existência.

Djam Neguin destaca que esta parceria reforça o compromisso do Kontornu com a responsabilidade social e a promoção de estilos de vida saudáveis, especialmente entre os jovens.

“A campanha tem sido fundamental na sensibilização para os impactos do consumo excessivo de álcool, incentivando escolhas conscientes e o bem-estar colectivo”, sublinhou.

Encontro Internacional de Programadores

O festival volta a acolher o Encontro Internacional de Programadores, um espaço de reflexão, networking e cooperação entre profissionais das artes.

A iniciativa é realizada em parceria com o Restaurante Batuku e a Câmara Municipal da Cidade Velha, promovendo o diálogo entre agentes culturais locais e internacionais. O encontro tem como objectivo fortalecer circuitos de circulação artística, estimular coproduções e posicionar Cabo Verde no mapa global das artes performativas.

Durante o festival, os participantes estarão em residência no Estádio Nacional, onde desenvolverão práticas intensivas de formação, criação e intercâmbio.

O festival encerra com o Kontornu Dance Battle, uma celebração das danças urbanas que terá lugar no Tarrafal. A actividade é realizada em parceria com o Festival IUFA (Açores).

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1274 de 29 de Abril de 2026.