Eleições legislativas, receitas mágicas e promessas de encantar

1. Os crédulos, os cépticos e as promessas "Um Cabo Verde para todos" - é o que promete o líder do PAICV se ganhar as eleições legislativas de 17 de maio. Para tão grande ambição, o programa parece, no mínimo... minimalista. E o discurso, também: nada de novo senão as mesmas promessas, algumas de encantar, ditas com a exaltação de quem pretende ter descoberto a receita mágica para todas as mazelas da Nação: "barku 500 xkudu, avion 5 kontu, universidade di graça..." E agora, mais esta: casas de alvenaria para todos aqueles que moram em "casa de bidon". Tudo de graça, nada a pagar! Paradoxalmente, o novo PAICV que acusa o actual Primeiro-Ministro de ter deixado promessas por cumprir, é o mesmo que agora promete tudo a mais alguma coisa! Tais promessas vêm sendo acolhidas entre credulidade e cepticismo, galvanizando os adeptos da mudança, enquanto os da continuidade alertam para desvarios populistas de consequências imprevisíveis. Mais alto falam as convicções político-ideológicas nas hostes partidárias, militantes e simpatizantes pregando pela sua paróquia de parte e doutra. Partidos à parte, certas promessas dão que pensar. Não as promessas em si, mas o seu carácter fantasista e a desenvoltura com que são brandidas. Muito boa gente mostra-se perplexa, dubitativa, mesmo dentro ou próxima da Oposição. Que é como quem diz: quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Eu, mais do que dubitativo, quedo-me preocupado, não vá a esperança transformar-se em desencanto e o desencanto em descontentamento. Preocupado porque desencanto e descontentamento costumam ser detonadores de conflitos sociais, e disso o nosso país não precisa. Em política, prometer é barato... mas pode custar caro. No caso vertente, duvidar não é pessimismo - é prudência. Cidadania responsável. É normal que os cidadãos mais atentos se interroguem: como realizar tantas promessas num país de tão magros recursos? Que diga o Sr. Ulisses Correia e Silva o que é lidar com uma economia vulnerável a choques externos (COVID e guerras pelo mundo) em contextos geopolíticos imprevisíveis. 2. Promessas opacas e difusas. Além disso, é notória a falta de clareza nas promessas, por demais opacas e confusas, sem acautelar as consequências, senão vejamos: barco, 500 escudos; avião, 5 contos (mercadorias de graça!) - mas ninguém diz de onde para onde! Uma viagem Praia/Maio vai custar o mesmo preço que Praia/S. Vicente? Onde está a lógica e a clareza nisto tudo? Mais: vai o governo FC "nacionalizar" os transportes marítimos? Vai criar uma mega-companhia de navegação, vai subsidiar as companhias privadas? Seja como for, o Estado teria que subsidiar. E as barracas, como vai acabar com elas? Deve, sim, o Governo AJUDAR os mais necessitados a terem um tecto, mas um polítco sensato não promete alojamentos de maneira indiscriminada, género uma barraca/uma casa. Tem que haver critérios para evitar derivas, não vá qualquer preguiçoso oportunista improvisar uma barraca e esperar deitado para receber uma casa chave-na-mão, sem esforço! Atenção a não misturar AJUDA à pobreza com assistencialismo ardiloso, nada mais perigoso para a economia em qualquer país, mormente em Cabo Verde! 3. Estado-providência vs. economia de mercado. Governar não é apenas prometer, é obrar por uma sociedade mais justa onde a igualdade de oportunidades não seja mera utopia de políticos em campanha. Ora, quem pensa nos outros não pode ignorar as assimetrias sociais ainda existentes no nosso país. Tais assimetrias clamam por políticas públicas justas e assertivas, sem desprimor pelo que vem sendo feito (e não é pouco) pelo actual Governo. Claro que é preciso fazer mais por uma sociedade mais justa, sem deixar ninguém para trás. Onde as pessoas valem pelo seu trabalho. Com empregos sustentáveis, previdência social para quem trabalha; saúde para todos, cobertura universal amparando os mais necessitados. Política tributária e fiscal para servir o bem comum sem esmagar o contribuinte. Pessoalmente, sou a favor de um governo menos pletórico, por isso menos dispendioso: menos ministros, menos "djipon" como diz o outro... Acho bem que os balúrdios gastos em "estudos e consultorias" de somenos importância (e outros gastos supérfluos imoderados) sejam canalizados para sectores sociais. Isto não é utopia - isto é possível! Mas é possível com uma governação responsável. Nada cai do céu, não há Estado social sem receitas públicas, sem impostos, para termos hospitais, escolas, bombeiros em alerta, segurança pública com policiamento nas ruas... Estado-providência não é incompatível com economia de mercado (antes pelo contrário), porém, nenhum candidato responsável promete dar tudo de graça sem gerar riqueza. A menos que tenha algum trunfo escondido na manga, algum coelho na cartola, é óbvio que os impostos teriam que aumentar, o que significa ir ao bolso dos contribuintes! 4. Só tapar buracos não é governar! O líder tambarina não

Eleições legislativas, receitas mágicas e promessas de encantar

1. Os crédulos, os cépticos e as promessas

"Um Cabo Verde para todos" - é o que promete o líder do PAICV se ganhar as eleições legislativas de 17 de maio.
Para tão grande ambição, o programa parece, no mínimo... minimalista. E o discurso, também: nada de novo senão as mesmas promessas, algumas de encantar, ditas com a exaltação de quem pretende ter descoberto a receita mágica para todas as mazelas da Nação: "barku 500 xkudu, avion 5 kontu, universidade di graça..." E agora, mais esta: casas de alvenaria para todos aqueles que moram em "casa de bidon". Tudo de graça, nada a pagar!
Paradoxalmente, o novo PAICV que acusa o actual Primeiro-Ministro de ter deixado promessas por cumprir, é o mesmo que agora promete tudo a mais alguma coisa!
Tais promessas vêm sendo acolhidas entre credulidade e cepticismo, galvanizando os adeptos da mudança, enquanto os da continuidade alertam para desvarios populistas de consequências imprevisíveis. Mais alto falam as convicções político-ideológicas nas hostes partidárias, militantes e simpatizantes pregando pela sua paróquia de parte e doutra.
Partidos à parte, certas promessas dão que pensar. Não as promessas em si, mas o seu carácter fantasista e a desenvoltura com que são brandidas. Muito boa gente mostra-se perplexa, dubitativa, mesmo dentro ou próxima da Oposição. Que é como quem diz: quando a esmola é muita, o pobre desconfia.
Eu, mais do que dubitativo, quedo-me preocupado, não vá a esperança transformar-se em desencanto e o desencanto em descontentamento. Preocupado porque desencanto e descontentamento costumam ser detonadores de conflitos sociais, e disso o nosso país não precisa. Em política, prometer é barato... mas pode custar caro.
No caso vertente, duvidar não é pessimismo - é prudência. Cidadania responsável. É normal que os cidadãos mais atentos se interroguem: como realizar tantas promessas num país de tão magros recursos? Que diga o Sr. Ulisses Correia e Silva o que é lidar com uma economia vulnerável a choques externos (COVID e guerras pelo mundo) em contextos geopolíticos imprevisíveis.
2. Promessas opacas e difusas.
Além disso, é notória a falta de clareza nas promessas, por demais opacas e confusas, sem acautelar as consequências, senão vejamos:
barco, 500 escudos; avião, 5 contos (mercadorias de graça!) - mas ninguém diz de onde para onde! Uma viagem Praia/Maio vai custar o mesmo preço que Praia/S. Vicente? Onde está a lógica e a clareza nisto tudo? Mais: vai o governo FC "nacionalizar" os transportes marítimos? Vai criar uma mega-companhia de navegação, vai subsidiar as companhias privadas? Seja como for, o Estado teria que subsidiar.
E as barracas, como vai acabar com elas? Deve, sim, o Governo AJUDAR os mais necessitados a terem um tecto, mas um polítco sensato não promete alojamentos de maneira indiscriminada, género uma barraca/uma casa. Tem que haver critérios para evitar derivas, não vá qualquer preguiçoso oportunista improvisar uma barraca e esperar deitado para receber uma casa chave-na-mão, sem esforço! Atenção a não misturar AJUDA à pobreza com assistencialismo ardiloso, nada mais perigoso para a economia em qualquer país, mormente em Cabo Verde!
3. Estado-providência vs. economia de mercado.
Governar não é apenas prometer, é obrar por uma sociedade mais justa onde a igualdade de oportunidades não seja mera utopia de políticos em campanha.
Ora, quem pensa nos outros não pode ignorar as assimetrias sociais ainda existentes no nosso país. Tais assimetrias clamam por políticas públicas justas e assertivas, sem desprimor pelo que vem sendo feito (e não é pouco) pelo actual Governo. Claro que é preciso fazer mais por uma sociedade mais justa, sem deixar ninguém para trás. Onde as pessoas valem pelo seu trabalho. Com empregos sustentáveis, previdência social para quem trabalha; saúde para todos, cobertura universal amparando os mais necessitados. Política tributária e fiscal para servir o bem comum sem esmagar o contribuinte. Pessoalmente, sou a favor de um governo menos pletórico, por isso menos dispendioso: menos ministros, menos "djipon" como diz o outro... Acho bem que os balúrdios gastos em "estudos e consultorias" de somenos importância (e outros gastos supérfluos imoderados) sejam canalizados para sectores sociais.
Isto não é utopia - isto é possível!
Mas é possível com uma governação responsável. Nada cai do céu, não há Estado social sem receitas públicas, sem impostos, para termos hospitais, escolas, bombeiros em alerta, segurança pública com policiamento nas ruas... Estado-providência não é incompatível com economia de mercado (antes pelo contrário), porém, nenhum candidato responsável promete dar tudo de graça sem gerar riqueza. A menos que tenha algum trunfo escondido na manga, algum coelho na cartola, é óbvio que os impostos teriam que aumentar, o que significa ir ao bolso dos contribuintes!
4. Só tapar buracos não é governar!
O líder tambarina não está de todo errado em diagnósticos, a questão é saber se está à altura de concretizar as suas promessas. Para já, quem quer ser Primeiro-Ministro não faz campanha com promessas ocas, nem se contenta com "tirar aqui para tapar ali" - isso não é um programa de governação, num país sério! Do palácio do Plateau ao palácio da Várzea, não é só prometer maravilhas e descer a rampa de São Januário!
Mais do que prometer, o líder tambarina deve COMPROMETER-SE não apenas com a inclusão social, mas também com a promoção do crescimento económico e a proteção ambiental, sendo estes os três pilares do desenvolvimento sustentável. O seu programa deve refletir o seu compromisso com os equilíbrios macroeconómicos, faute de quoi não é possível implementar políticas públicas para acudir aos mais desfavorecidos.
Um Primeiro-Ministro a sério não pode ser "lôfa" em contas, pois deve estar atento ao bom equilíbrio orçamental, lidar com a dívida externa, a dívida pública, inflação, taxas de juro...
Mais atenção à Emigração e à Política Externa. Uma reforma da justiça que proteja o cidadão do bem e não o malfeitor; que mande delinquentes para a cadeia e não objetores de consciência! Que nepotismo e corrupção não façam escola, que as nomeações sejam por mérito, sem favoritismos.
Queremos governantes que viagem menos (nesse quesito o FC ficou mudo e calado, lá sabe porquê!) e apostem nas novas tecnologias para levar Cabo Verde ao mundo e trazer o mundo a Cabo Verde.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1274 de 29 de Abril de 2026.