Escritoras Negras Existem: e ainda assim somos exceção
A primeira romancista publicada no Brasil foi negra. O nome dela é Maria Firmina dos Reis, maranhense, autora de Ursula em 1859. Mais de 160 anos depois, essa frase continua soando como novidade para muita gente. E é aí que mora a ferida, relatou Claudia Valesca escritora negra ao jornalista Mauricio Pestana “se o ponto […] O conteúdo Escritoras Negras Existem: e ainda assim somos exceção aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
A primeira romancista publicada no Brasil foi negra. O nome dela é Maria Firmina dos Reis, maranhense, autora de Ursula em 1859. Mais de 160 anos depois, essa frase continua soando como novidade para muita gente. E é aí que mora a ferida, relatou Claudia Valesca escritora negra ao jornalista Mauricio Pestana “se o ponto de partida da nossa literatura de autoria feminina negra já foi dado no século 19, por que até hoje as mulheres negras de grande projeção no campo literário e intelectual ainda podem ser contadas nos dedos?” e continua “Conceição Evaristo. Djamila Ribeiro. E agora Ana Maria Gonçalves, que em 2025 tomou posse na Academia Brasileira de Letras.”
Nomes gigantes, que carregam nas costas o peso de representar uma população inteira. Porque quando a gente junta os dados, o contraste dói: mulheres negras são a maior parcela da população brasileira. Somadas, elas superam mulheres brancas, homens negros e homens brancos. Somos maioria demográfica. Mas na prateleira das editoras, nas listas de mais vendidos, nas cadeiras da ABL, nos currículos escolares, ainda somos “poças” — raras, isoladas, exemplo que confirma a regra.
O paradoxo é cruel. Na base, nós movemos tudo. Somos maioria no empreendedorismo de rua, de salão, de comida. Somos as que mais entraram nas universidades nos últimos 10 anos, puxando família inteira junto com Fies, Prouni e cotas. Somos maioria nos serviços essenciais, na cultura, na educação básica, na saúde. Sustentamos o país no braço. Mas quando o assunto é caneta, voz autoral e legitimidade literária, o acesso afunila. Como se escrever fosse um privilégio a mais que não nos cabe.
É contra esse apagamento que a literatura negra feminina vem se organizando. E a Revista RAÇA acompanha e apoia esse movimento desde o ano passado porque entende: não falta talento, falta espaço.
No dia 18 de julho de 2026, das 11h às 14h, na Escadaria do Bixiga em São Paulo, o Coletivo de Escritoras Negras Flores de Baobá realiza a 3ª edição do “Escritoras Negras Existem – Foto Histórica”. Às 12h em ponto, dezenas de escritoras de várias gerações e regiões vão subir os degraus para o registro oficial — um retrato que acontece a cada dois anos desde 2022. Depois, sarau aberto: poesia, conto, crônica, performance.
O coletivo nasceu em dezembro de 2018, no lançamento de _Cadernos Negros 41_. São sete mulheres — Benedita Lopes, Catita, Claudia Walleska, Esmeralda Ribeiro, Joice Aziza, Mari Vieira e Samira Calais — que decidiram não esperar convite. Criaram o próprio palco. Em 2024, mais de 70 autoras ocuparam a escadaria. Em 2026, o ato se consolida como manifesto: afeto, união e demarcação de território.
Porque a questão não é “existem escritoras negras?”. A questão é: por que o Brasil ainda se surpreende quando nos vê?
Maria Firmina abriu o caminho em 1859. Conceição, Djamila e Ana Maria escancaram a porta hoje. As Flores de Baobá regam o chão para que amanhã essa presença não seja evento, seja cotidiano.
Literatura não é favor. É direito. E nós já estamos escrevendo.
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