A ela o prêmio, a promoção e a impunidade
Não é só mais um caso, mais um nome, mais um procedimento administrativo aberto. Quando dizem que uma agente matou uma mulher na periferia de São Paulo — uma mulher negra — e depois disso seguiu sua trajetória, e até está sendo sendo promovida enquanto tudo ainda é “investigado”, o que chega até mim não […] O conteúdo A ela o prêmio, a promoção e a impunidade aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
Não é só mais um caso, mais um nome, mais um procedimento administrativo aberto. Quando dizem que uma agente matou uma mulher na periferia de São Paulo — uma mulher negra — e depois disso seguiu sua trajetória, e até está sendo sendo promovida enquanto tudo ainda é “investigado”, o que chega até mim não é o juridiquês. É outra coisa.
É a sensação de que existe uma hierarquia silenciosa de vidas.
Não importa quantas vezes se repita que “o caso está sendo apurado”, que “as circunstâncias ainda não foram esclarecidas”. Existe um padrão que a gente já conhece. A gente reconhece antes mesmo do desfecho. Porque não começa naquele dia vem de antes, de muitos antes.
Eu penso no que significa morrer numa abordagem, ou pior nem foi mesmo uma abordagem. Não é só a morte em si. É o contexto inteiro: o lugar onde acontece, quem morre, quem atira, e o que acontece depois. Principalmente o depois.
Quando não há câmera, o que sobra é narrativa. E narrativa, no Brasil, tem dono. A versão oficial quase sempre chega primeiro, mais organizada, mais legitimada. A versão de quem estava lá, de quem viu, de quem conhecia a vítima, chega depois, fragmentada, desacreditada. Sem imagem, a dúvida não é neutra: ela pesa mais contra quem já está em desvantagem.
E aí entra o ponto que mais me incomoda.
A promoção.
Talvez, tecnicamente, alguém diga que não há relação direta. Que a progressão na carreira segue critérios formais, que não se pode punir antes da conclusão da investigação, que o devido processo legal precisa ser respeitado. Tudo isso pode até ser verdade dentro do sistema.
Mas fora dele, no mundo real, o símbolo fala mais alto.
Para quem vive na periferia, ver alguém envolvido numa morte seguir adiante, crescer na carreira, vestir a farda no dia seguinte como se nada tivesse acontecido… isso não parece neutralidade institucional. Parece recompensa.
E é daí que nasce essa frase dura: “a ela, o prêmio”.
Não como afirmação literal, mas como tradução de um sentimento coletivo.
Porque o problema nunca foi só um caso. É o acúmulo.
É olhar para trás e perceber que, na maioria das vezes, quando a vítima tem o mesmo perfil, negra, periférica, o desfecho raramente rompe o padrão. A investigação demora, se dilui, perde força. E a vida que se foi vira estatística, debate, ruído… até desaparecer.
Enquanto isso, do outro lado, a máquina continua funcionando.
Eu não acho que toda agente de segurança seja violenta. Seria simplista e injusto dizer isso. Mas também não dá para ignorar que o sistema em que essas agentes estão inseridas produz, tolera ou encobre certos comportamentos. principalmente quando eles acontecem em determinados territórios.
A periferia não é só um lugar geográfico. É um lugar político. É onde o Estado chega de forma diferente: mais armado, mais desconfiado, mais rápido para agir do que para explicar.
E quando uma morte acontece ali, a pergunta não é apenas “o que aconteceu?”, mas “o que vai acontecer agora?”.
E, pior ainda: “isso vai dar em alguma coisa?”
Se a resposta, repetidas vezes, parece ser “não muito”, então a confiança se rompe.
E quando a confiança se rompe, o que sobra é o sentimento de abandono — ou de ameaça. A polícia, que deveria proteger, passa a ser vista com ambiguidade. Às vezes como proteção, às vezes como risco. Isso não é normal, mas vai se tornando cotidiano.
Eu volto à imagem inicial: uma mulher morta, uma investigação aberta, e a vida institucional seguindo seu curso.
Talvez o sistema diga que está tudo dentro das regras.
Mas do lado de fora, a leitura é outra.
Do lado de fora, parece que algumas mortes pesam menos.
E quando pesam menos, qualquer avanço de quem causou essa morte — direto ou indireto — soa como prêmio.
É isso que precisa ser enfrentado.
Não só o caso, mas o padrão que faz com que a frase faça sentido.
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