Aos 90 anos da Claridade, Leão Lopes à conversa com Brito-Semedo - “A escrita claridosa procurou novas formas de dizer, de pensar e de representar a realidade cabo-verdiana”, Leão Lopes
Pela primeira vez, Cabo Verde surgia como objecto central de reflexão sistemática por parte de uma geração que recusava limitar-se à repetição cultural herdada e procurava compreender o arquipélago na sua singularidade histórica, social, linguística e humana. A Claridade abriu, assim, um novo regime da palavra nacional: uma palavra consciente, crítica, insular e simultaneamente atlântica.É nesse horizonte que se inscreve esta conversa com Leão Lopes, artista plástico, pensador da cultura, doutorado pela Universidade de Rennes II, com uma tese dedicada ao escritor cabo-verdiano Baltasar Lopes, ligação académica que confere a esta entrevista uma densidade particular.Revisitar a Claridade com Leão Lopes significa regressar não apenas a uma revista ou a uma geração, mas ao próprio instante em que Cabo Verde começou a pensar-se modernamente como problema, como identidade e como construção histórica. Noventa anos depois, a questão permanece viva: o que abriu verdadeiramente a Claridade e o que continua ela a exigir-nos enquanto país?Manuel Brito-Semedo (MBS) – Quando falamos hoje da Claridade, de que falamos realmente?Leão Lopes (LL) – Quando falamos da Claridade hoje, falamos muitas vezes de um tempo histórico ainda insuficientemente aprofundado. Este momento da nossa história não foi estudado com a profundidade necessária para se compreender plenamente a dimensão de ruptura que representou. A Claridade continua demasiadas vezes reduzida à condição de revista literária ou de órgão de um grupo de jovens intelectuais, e essa leitura é manifestamente insuficiente. A Claridade foi muito mais do que isso. Representou uma ruptura histórica e intelectual com um pensamento herdado, afirmando uma nova consciência insular, identitária e cultural. O seu legado ultrapassa largamente a dimensão literária. Trata-se de um momento fundador no processo de afirmação de Cabo Verde como comunidade consciente de si própria no espaço atlântico.Mais do que inaugurar uma estética, a Claridade inaugurou uma epistemologia nacional. Pela primeira vez, o país passou a ser observado de dentro para fora, a partir da sua geografia humana, da sua emigração, da sua língua, das suas contradições sociais e da sua experiência histórica singular. Esse gesto continua a exigir releitura, porque permanece fundador.MBS – Que país começam Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa a construir em palavras?LL – Antes de construírem um país em palavras, começaram por construir-se a si próprios como sujeitos conscientes do seu espaço insular e da sua inserção no mundo. Procuraram encontrar-se a si mesmos dentro da realidade insular, sem nunca perder de vista o mundo mais vasto que se cruzava neste arquipélago, a partir do seu lugar e, procuraram reinterpretá-lo. Se relermos Chiquinho vamos encontrar nele essa consciência inaugural de um grupo de jovens que pensa Cabo Verde a partir da sua própria realidade histórica, social e cultural.Nele, o país que esses personagens começam a construir não é ainda uma nação política, mas já é uma nação cultural. É um país feito de linguagem, de memória, de observação social, de denúncia subtil e de afirmação simbólica. Ao grafarem isso tudo, começaram a instituir um Cabo Verde pensável, narrável e criticável por si próprio. É neste romance, de Baltasar Lopes, que se revela, em primeira mão, o programa do grupo da revista Claridade.MBS – Os limites coloniais travaram ou afinaram o projecto da Claridade?LL – Instigaram-no. Em contextos de limitação política e social, os espíritos mais sensíveis, sobretudo os jovens, tendem a reagir de forma criativa e afirmativa. Foi precisamente nesse quadro de constrangimento que surgiu uma geração capaz de transformar limitações em impulso de afirmação cultural e intelectual. A Claridade nasce desse movimento de realização crítica, estética e histórica.Os limites coloniais funcionaram, paradoxalmente, como provocação. A censura, a escassez e a marginalidade geopolítica não impediram a emergência da Claridade; contribuíram para aguçar nesses jovens — tinham entre 26 e pouco mais de 30 anos — a necessidade de interpretação própria do que viviam e experimentavam na pele. Isso conferiu à geração claridosa uma subtileza crítica particular: a capacidade de dizer profundamente sob condições de limitação.MBS – Em que sentido a escrita claridosa pode ser entendida como acto de consciência cívica?LL – Mais do que um acto cívico directo, trata-se de uma procura estética e intelectual. A escrita claridosa procurou novas formas de dizer, de pensar e de representar a realidade cabo-verdiana. Não rompeu com o legado herdado por simples rejeição, mas por questionamento crítico desse legado. Essa atitude constitui, a um tempo, uma profunda consciência social e, acto cultural e cívico.Ao recentrar o país sobre si mesmo, a Claridade exerceu uma pedagogia crítica. Instigou a observar, a interrogar, a valorizar e a reinterpretar. Mesmo não fazendo militância política directa — impensável neste contexto —,
Pela primeira vez, Cabo Verde surgia como objecto central de reflexão sistemática por parte de uma geração que recusava limitar-se à repetição cultural herdada e procurava compreender o arquipélago na sua singularidade histórica, social, linguística e humana. A Claridade abriu, assim, um novo regime da palavra nacional: uma palavra consciente, crítica, insular e simultaneamente atlântica.
É nesse horizonte que se inscreve esta conversa com Leão Lopes, artista plástico, pensador da cultura, doutorado pela Universidade de Rennes II, com uma tese dedicada ao escritor cabo-verdiano Baltasar Lopes, ligação académica que confere a esta entrevista uma densidade particular.
Revisitar a Claridade com Leão Lopes significa regressar não apenas a uma revista ou a uma geração, mas ao próprio instante em que Cabo Verde começou a pensar-se modernamente como problema, como identidade e como construção histórica. Noventa anos depois, a questão permanece viva: o que abriu verdadeiramente a Claridade e o que continua ela a exigir-nos enquanto país?
Manuel Brito-Semedo (MBS) – Quando falamos hoje da Claridade, de que falamos realmente?
Leão Lopes (LL) – Quando falamos da Claridade hoje, falamos muitas vezes de um tempo histórico ainda insuficientemente aprofundado. Este momento da nossa história não foi estudado com a profundidade necessária para se compreender plenamente a dimensão de ruptura que representou. A Claridade continua demasiadas vezes reduzida à condição de revista literária ou de órgão de um grupo de jovens intelectuais, e essa leitura é manifestamente insuficiente. A Claridade foi muito mais do que isso. Representou uma ruptura histórica e intelectual com um pensamento herdado, afirmando uma nova consciência insular, identitária e cultural. O seu legado ultrapassa largamente a dimensão literária. Trata-se de um momento fundador no processo de afirmação de Cabo Verde como comunidade consciente de si própria no espaço atlântico.Mais do que inaugurar uma estética, a Claridade inaugurou uma epistemologia nacional. Pela primeira vez, o país passou a ser observado de dentro para fora, a partir da sua geografia humana, da sua emigração, da sua língua, das suas contradições sociais e da sua experiência histórica singular. Esse gesto continua a exigir releitura, porque permanece fundador.
MBS – Que país começam Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa a construir em palavras?
LL – Antes de construírem um país em palavras, começaram por construir-se a si próprios como sujeitos conscientes do seu espaço insular e da sua inserção no mundo. Procuraram encontrar-se a si mesmos dentro da realidade insular, sem nunca perder de vista o mundo mais vasto que se cruzava neste arquipélago, a partir do seu lugar e, procuraram reinterpretá-lo. Se relermos Chiquinho vamos encontrar nele essa consciência inaugural de um grupo de jovens que pensa Cabo Verde a partir da sua própria realidade histórica, social e cultural.Nele, o país que esses personagens começam a construir não é ainda uma nação política, mas já é uma nação cultural. É um país feito de linguagem, de memória, de observação social, de denúncia subtil e de afirmação simbólica. Ao grafarem isso tudo, começaram a instituir um Cabo Verde pensável, narrável e criticável por si próprio. É neste romance, de Baltasar Lopes, que se revela, em primeira mão, o programa do grupo da revista Claridade.
MBS – Os limites coloniais travaram ou afinaram o projecto da Claridade?
LL – Instigaram-no. Em contextos de limitação política e social, os espíritos mais sensíveis, sobretudo os jovens, tendem a reagir de forma criativa e afirmativa. Foi precisamente nesse quadro de constrangimento que surgiu uma geração capaz de transformar limitações em impulso de afirmação cultural e intelectual. A Claridade nasce desse movimento de realização crítica, estética e histórica.Os limites coloniais funcionaram, paradoxalmente, como provocação. A censura, a escassez e a marginalidade geopolítica não impediram a emergência da Claridade; contribuíram para aguçar nesses jovens — tinham entre 26 e pouco mais de 30 anos — a necessidade de interpretação própria do que viviam e experimentavam na pele. Isso conferiu à geração claridosa uma subtileza crítica particular: a capacidade de dizer profundamente sob condições de limitação.
MBS – Em que sentido a escrita claridosa pode ser entendida como acto de consciência cívica?
LL – Mais do que um acto cívico directo, trata-se de uma procura estética e intelectual. A escrita claridosa procurou novas formas de dizer, de pensar e de representar a realidade cabo-verdiana. Não rompeu com o legado herdado por simples rejeição, mas por questionamento crítico desse legado. Essa atitude constitui, a um tempo, uma profunda consciência social e, acto cultural e cívico.Ao recentrar o país sobre si mesmo, a Claridade exerceu uma pedagogia crítica. Instigou a observar, a interrogar, a valorizar e a reinterpretar. Mesmo não fazendo militância política directa — impensável neste contexto —, produzia cidadania intelectual.
MBS – Os grandes temas da Claridade são literários ou estruturais?
LL – São ambas as coisas. Há uma inovação literária decisiva, mas essa inovação assenta sobre uma estrutura de pensamento sólida, filosófica e estética. A língua portuguesa é revisitada, a língua materna infiltra-se criativamente na construção literária, o imaginário cabo-verdiano ganha centralidade. Num contexto de censura, a escrita claridosa reinventou formas de expressão e consolidou uma literatura singular, uma poesia singular e um modo próprio de pensar e estar.Os grandes temas são estruturais porque envolvem seca, fome, emigração, insularidade, mobilidade, língua, identidade e destino colectivo. A literatura foi o veículo; o objecto era muito mais vasto: a estrutura social da existência cabo-verdiana.
MBS – Como ler hoje as críticas dirigidas à Claridade, nomeadamente as formuladas por Onésimo Silveira em Consciencialização na Literatura Cabo-verdiana?
LL – Essas críticas devem ser sempre lidas a partir do seu contexto histórico. O ensaio de Onésimo correspondeu à afirmação de uma nova geração e a uma leitura crítica própria do seu tempo. Contudo, o próprio Onésimo viria mais tarde a rever a sua posição, o que demonstra a vitalidade da Claridade enquanto objecto de releitura e debate. O facto de continuar a suscitar críticas, revisões e interpretações diversas demonstra precisamente que permanece viva enquanto momento fundador da modernidade cabo-verdiana.As críticas posteriores não anulam a Claridade; antes confirmam a sua centralidade. Apenas obras fundadoras, como foi o caso, suportam revisões sucessivas sem perderem relevância.
MBS – A Claridade encerra-se em 1960 ou inaugura uma tradição crítica?
LL – Inaugura claramente uma tradição crítica. Se estivesse encerrada, teria sido remetida ao arquivo histórico. Pelo contrário, continua activa como referência, debate e provocação intelectual. A sua permanência revela a sua profundidade e a sua importância, ainda hoje, na contemporaneidade cabo-verdiana.A Claridade permanece porque ultrapassou a sua materialidade editorial e transformou-se em paradigma interpretativo. Continua a ser relida porque ainda ajuda a pensar questões centrais da identidade cabo-verdiana.
MBS – É possível pensar a crioulidade sem a Claridade?
LL – A crioulidade deve ser entendida numa dimensão ampla e dinâmica, como encontro, conflito e criação contínua de novas formas de relacionamento sociais e culturais. Interessa-me a crioulidade enquanto “poética da relação”, próxima da formulação de Édouard Glissant. Nesse sentido, a Claridade antecipou muitos debates posteriores ao pensar Cabo Verde como espaço de síntese criadora. Os claridosos encontravam-se, em vários aspectos, intelectualmente adiantados relativamente a outras correntes.A Claridade não esgota a crioulidade, mas oferece-lhe uma das primeiras formulações modernas e conscientes. Pensar Cabo Verde sem essa mediação seria amputar parte decisiva da sua auto-interpretação contemporânea.
MBS – Que diálogo existe entre a Claridade e outras artes para além da literatura?
LL – A Claridade não se limita à literatura. Há nela uma dimensão antropológica, etnográfica, cultural e social de enorme relevância. Textos de autores como Félix Monteiro ou João Lopes revelam uma atenção profunda às práticas culturais, às tradições populares e às formas sociais cabo-verdianas. A revista constitui igualmente um marco fundador da reflexão antropológica em Cabo Verde. Pela primeira vez, creio, um conto popular para a infância, O Lobo e o Chibinho, tem honra literária, escrita. Pela pena de Baltasar Lopes. O primeiro número abre com dois motivos de finaçon da ilha de Santiago. Esse legado prolonga-se nas artes gráficas, por exemplo,nos recursos inovadores usados, na música, na investigação histórica e na reflexão cultural contemporânea. A Claridade ajudou a abrir um horizonte interdisciplinar de interpretação nacional.
MBS – O que pode a Claridade ensinar num tempo de aceleração mediática?
LL – Sobretudo a importância da leitura crítica, da reflexão aprofundada e da observação rigorosa da realidade. Num tempo marcado pela velocidade, pela efemeridade e pela superficialidade, a Claridade recorda-nos o valor do pensamento lento, estruturado, exigente e responsável.Hoje, quando a compressão do tempo ameaça reduzir a profundidade da reflexão, a Claridade permanece como lembrança de que pensar um país exige demora, densidade e continuidade.
MBS – Existem hoje espaços equivalentes de reflexão crítica?
LL – O tempo actual exige outras formas e outros instrumentos. Não existem equivalentes directos, porque os contextos históricos mudaram. Contudo, a necessidade de reflexão crítica permanece. A diferença reside sobretudo na forma, muitas vezes mais fragmentária e efémera, como essa reflexão circula hoje.Talvez o desafio contemporâneo não seja reproduzir a Claridade, mas reencontrar a sua exigência intelectual sob novas condições sociais, culturais, económicas e políticas.
MBS – Coincidindo esta entrevista com o aniversário de Baltasar Lopes (23 de Abril), que palavra final gostaria de deixar?
LL – Baltasar Lopes permanece uma figura matricial da cultura cabo-verdiana. Celebrá-lo é reconhecer uma obra e um pensamento que continuam a interpelar-nos. A sua actualidade reside precisamente nessa capacidade de permanecer como referência viva da nossa consciência cultural.Baltasar simboliza essa geração que soube transformar condição periférica em centralidade reflexiva. Noventa anos depois, permanece não como estátua imóvel, mas como interlocutor activo de um país que continua a procurar compreender-se.
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Aos 90 anos, a Claridade permanece menos como memória encerrada do que como pergunta aberta. Continua a interpelar Cabo Verde sobre a sua história, a sua identidade, a sua crioulidade e a sua capacidade de pensar-se criticamente. Regressar à Claridade não significa apenas homenagear um passado ilustre. Significa reconhecer que o país continua a precisar de pensamento exigente, de leitura estrutural e de uma palavra capaz de ligar memória, presente e futuro. Pensar Cabo Verde continua, afinal, a exigir tempo.
A entrevista completa do ser ouvida no Podcast do VOZES E HISTÓRIAS.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276 de 13 de Maio de 2026.