Dislexia: quando ler nunca é automático

“Eu gostava da minha antiga escola, mas gosto mais da escola actual porque sofria muito bullying”, conta. O problema, explica com autorização da mãe, não estava apenas na aprendizagem, mas sobretudo na forma como era exposto perante os colegas.“Tinha de soletrar para ler e os meus colegas riam. Por isso passei a recusar ler”, recorda. Na escola nova, Tiago diz sentir-se mais confortável, já que os professores evitam colocá-lo a ler em voz alta.A dislexia, embora não tenha sido identificada desde cedo, esteve sempre presente no percurso escolar. Muitas vezes foi confundida com falta de interesse ou esforço. No caso de Tiago, manifestou-se em recusas de leitura, notas baixas e situações de exposição perante os colegas. Só mais tarde vieram as consultas médicas e a confirmação do diagnóstico.A mãe, Maria, construiu a compreensão do problema através do quotidiano, dos recados da escola e das dificuldades do filho. “O Tiago ia à escola todos os dias, sem faltar, mas não conseguia ler”, conta.Empregada doméstica e com rendimentos limitados, insistiu em procurar respostas. “Eu não tenho estudo, mas percebia que não era normal”, diz. A situação chegou a gerar castigos físicos porque acreditava que o filho não estudava o suficiente.“Quando o Tiago chegava a casa com notas baixas eu batia nele porque achava que não estudava”, admite.A mudança de percepção surgiu apenas após o enquadramento clínico. Nessa altura, Tiago já tinha repetido de ano e mudado de escola.“Na primeira consulta, a pediatra disse que não era normal uma criança do 5.º ano ter aquele atraso”, recorda.Seguiu-se um percurso longo no sistema público de saúde. “Tive de ir ao neurologista, ao psicólogo, ao fonoaudiólogo e ao neuropediatra”, enumera. Mesmo após o diagnóstico, Maria considera que a escola não respondeu com adaptações consistentes. “Ele era avaliado da mesma forma que os colegas”, afirma.A solução voltou a passar por uma mudança de escola. “Acabei por matriculá-lo numa escola privada”. Segundo a mãe, a diferença foi imediata. “Está mais feliz, mudou muito”.O percurso passou de conflitos e chamadas constantes à escola para maior estabilidade. “Já foi nomeado chefe de turma e recebeu um quadro de reconhecimento”, orgulha-se.“As notas melhoraram muito. No primeiro e segundo trimestres não teve negativas e até trouxe um teste de 14”.Apesar da evolução, a leitura continua a ser um desafio. “Mesmo com notas melhores, o meu filho ainda não lê bem”, afirma.Sinalização de alunos e responsabilidades dos professoresNo interior da ilha do Fogo, uma professora, que prefere não se identificar e a quem chamaremos Ana, relata a experiência com um aluno do 4.º ano que acumulava várias reprovações. “Já estava na quarta reprovação. Os colegas tinham entre 8 e 9 anos e ele tinha entre 12 e 13”, conta.Os professores anteriores já comentavam que o aluno não sabia ler. Quando começou a acompanhá-lo, confirmou as dificuldades. “Ele realmente não sabia ler nem sequer as sílabas”.Apesar disso, destaca que o aluno conseguia acompanhar melhor a Matemática. “Fazia todas as contas e conseguia sair-se bem”. Na leitura, porém, o desempenho era muito reduzido. Para evitar humilhações, Ana deixou de o expor à leitura em voz alta e tentou estratégias individuais.“Imprimi vogais, silabário, tudo da base. Dividia as palavras em partes e trabalhava com ele nos intervalos”, explica. Ainda assim, o aluno voltou a reprovar.Segundo a docente, o sistema não apoia suficientemente os professores que sinalizam alunos com necessidades especiais. “Se o professor quiser sinalizar um aluno, tem de se responsabilizar por tudo: reforço, psicólogos, relatórios e planos”, afirma.Ana acrescenta que esse trabalho extra não é acompanhado por condições logísticas ou financeiras. “Era muito trabalho e a escola não pagava deslocações”.Por isso, admite, muitos professores acabam por evitar sinalizações. O contexto familiar também dificultou o processo. “Falei da suspeita de dislexia, mas a mãe dizia que o filho fingia e não queria aprender”.Para a docente, a falta de recursos continua a ser um dos principais entraves. “Há poucos psicólogos e não se consegue dar resposta”.Também a formação dos professores é insuficiente. “Nós não recebemos formação sobre dislexia, a não ser que o professor procure por iniciativa própria”.O que é a dislexia e como se manifesta no contexto escolarA dislexia integra o grupo das perturbações específicas da aprendizagem e tem origem neurobiológica. Não está relacionada com limitações intelectuais, mas interfere sobretudo na leitura e, consequentemente, na escrita.Segundo Arminda Reis, psicóloga educacional com cerca de 17 anos de experiência em educação inclusiva, trata-se de uma condição que afecta a forma como a criança processa a linguagem escrita.“A dislexia caracteriza-se por dificuldades de leitura e escrita, mas não tem relação com inteligência. A criança tem capacidades cognitivas preservadas”, explica.No contexto escolar, as dificuldades tornam-se mais visíveis n

Dislexia: quando ler nunca é automático

“Eu gostava da minha antiga escola, mas gosto mais da escola actual porque sofria muito bullying”, conta. O problema, explica com autorização da mãe, não estava apenas na aprendizagem, mas sobretudo na forma como era exposto perante os colegas.

“Tinha de soletrar para ler e os meus colegas riam. Por isso passei a recusar ler”, recorda. Na escola nova, Tiago diz sentir-se mais confortável, já que os professores evitam colocá-lo a ler em voz alta.

A dislexia, embora não tenha sido identificada desde cedo, esteve sempre presente no percurso escolar. Muitas vezes foi confundida com falta de interesse ou esforço. No caso de Tiago, manifestou-se em recusas de leitura, notas baixas e situações de exposição perante os colegas. Só mais tarde vieram as consultas médicas e a confirmação do diagnóstico.

A mãe, Maria, construiu a compreensão do problema através do quotidiano, dos recados da escola e das dificuldades do filho. “O Tiago ia à escola todos os dias, sem faltar, mas não conseguia ler”, conta.

Empregada doméstica e com rendimentos limitados, insistiu em procurar respostas. “Eu não tenho estudo, mas percebia que não era normal”, diz. A situação chegou a gerar castigos físicos porque acreditava que o filho não estudava o suficiente.

“Quando o Tiago chegava a casa com notas baixas eu batia nele porque achava que não estudava”, admite.

A mudança de percepção surgiu apenas após o enquadramento clínico. Nessa altura, Tiago já tinha repetido de ano e mudado de escola.

“Na primeira consulta, a pediatra disse que não era normal uma criança do 5.º ano ter aquele atraso”, recorda.

Seguiu-se um percurso longo no sistema público de saúde. “Tive de ir ao neurologista, ao psicólogo, ao fonoaudiólogo e ao neuropediatra”, enumera. Mesmo após o diagnóstico, Maria considera que a escola não respondeu com adaptações consistentes. “Ele era avaliado da mesma forma que os colegas”, afirma.

A solução voltou a passar por uma mudança de escola. “Acabei por matriculá-lo numa escola privada”. Segundo a mãe, a diferença foi imediata. “Está mais feliz, mudou muito”.

O percurso passou de conflitos e chamadas constantes à escola para maior estabilidade. “Já foi nomeado chefe de turma e recebeu um quadro de reconhecimento”, orgulha-se.

“As notas melhoraram muito. No primeiro e segundo trimestres não teve negativas e até trouxe um teste de 14”.

Apesar da evolução, a leitura continua a ser um desafio. “Mesmo com notas melhores, o meu filho ainda não lê bem”, afirma.

Sinalização de alunos e responsabilidades dos professores

No interior da ilha do Fogo, uma professora, que prefere não se identificar e a quem chamaremos Ana, relata a experiência com um aluno do 4.º ano que acumulava várias reprovações. “Já estava na quarta reprovação. Os colegas tinham entre 8 e 9 anos e ele tinha entre 12 e 13”, conta.

Os professores anteriores já comentavam que o aluno não sabia ler. Quando começou a acompanhá-lo, confirmou as dificuldades. “Ele realmente não sabia ler nem sequer as sílabas”.

Apesar disso, destaca que o aluno conseguia acompanhar melhor a Matemática. “Fazia todas as contas e conseguia sair-se bem”. Na leitura, porém, o desempenho era muito reduzido. Para evitar humilhações, Ana deixou de o expor à leitura em voz alta e tentou estratégias individuais.

“Imprimi vogais, silabário, tudo da base. Dividia as palavras em partes e trabalhava com ele nos intervalos”, explica. Ainda assim, o aluno voltou a reprovar.

Segundo a docente, o sistema não apoia suficientemente os professores que sinalizam alunos com necessidades especiais. “Se o professor quiser sinalizar um aluno, tem de se responsabilizar por tudo: reforço, psicólogos, relatórios e planos”, afirma.

Ana acrescenta que esse trabalho extra não é acompanhado por condições logísticas ou financeiras. “Era muito trabalho e a escola não pagava deslocações”.

Por isso, admite, muitos professores acabam por evitar sinalizações. O contexto familiar também dificultou o processo. “Falei da suspeita de dislexia, mas a mãe dizia que o filho fingia e não queria aprender”.

Para a docente, a falta de recursos continua a ser um dos principais entraves. “Há poucos psicólogos e não se consegue dar resposta”.

Também a formação dos professores é insuficiente. “Nós não recebemos formação sobre dislexia, a não ser que o professor procure por iniciativa própria”.

O que é a dislexia e como se manifesta no contexto escolar

A dislexia integra o grupo das perturbações específicas da aprendizagem e tem origem neurobiológica. Não está relacionada com limitações intelectuais, mas interfere sobretudo na leitura e, consequentemente, na escrita.

Segundo Arminda Reis, psicóloga educacional com cerca de 17 anos de experiência em educação inclusiva, trata-se de uma condição que afecta a forma como a criança processa a linguagem escrita.

“A dislexia caracteriza-se por dificuldades de leitura e escrita, mas não tem relação com inteligência. A criança tem capacidades cognitivas preservadas”, explica.

No contexto escolar, as dificuldades tornam-se mais visíveis na leitura. A criança lê de forma lenta, com trocas de fonemas, omissões e dificuldade em reconhecer palavras. Essas limitações acabam por afectar também a escrita e a compreensão.

Além disso, podem surgir dificuldades na consciência fonológica, na distinção entre sons semelhantes e na memorização de sequências simples, como dias da semana ou meses do ano.

“O F e o V, ou o P e o T, por exemplo, podem ser confundidos”, refere.

Crédito foto: Depositphotos_8_XL

A identificação da dislexia exige uma equipa multidisciplinar, envolvendo neurologistas, psicólogos, pedagogos e terapeutas da fala**, também chamados** de fonoaudiólogos. Muitas vezes, os primeiros sinais tornam-se evidentes na escola, quando a criança inicia a aprendizagem formal da leitura. Ainda assim, Arminda Reis alerta que o diagnóstico não deve transformar-se num rótulo.

“A dislexia não é uma doença com cura. É uma condição que acompanha a pessoa ao longo da vida”.

Quanto à intervenção, defende uma articulação entre escola, família e profissionais de saúde.

“É preciso um trabalho conjunto entre família, escola e técnicos especializados”.

Entre as estratégias apontadas estão o reforço da consciência fonológica, apoio individualizado e uso de ferramentas tecnológicas adaptadas.

Na sala de aula, a adaptação das avaliações também é essencial. “Um aluno com dislexia não deve ser avaliado da mesma forma que outro sem dificuldades de leitura”, afirma.

Segundo a psicóloga, os casos identificados em Cabo Verde têm aumentado devido à maior sensibilização e à existência de mais especialistas. “A prevalência estimada é de cerca de 5% a nível mundial. Hoje há mais consciência por parte de pais e professores”.

Apesar disso, o estigma continua presente. “O diagnóstico pode trazer rótulos e afectar a autoimagem da criança”, alerta.

Por isso, defende intervenção precoce e menos exposição pública da criança. “O mais importante é actuar sobre os sinais, evitar exposições de leitura e apoiar a criança na sua aceitação”.

O papel da fonoaudiologia

Segundo a fonoaudióloga infantil Viviane Moura, este profissional ajuda a identificar dificuldades ligadas à linguagem, leitura e escrita, distinguindo dificuldades pedagógicas de transtornos específicos da aprendizagem.

A avaliação inclui consciência fonológica, associação entre letras e sons, descodificação de palavras e memória fonológica. “O fonoaudiólogo realiza uma avaliação detalhada das habilidades de linguagem oral e escrita da criança”, explica.

O trabalho é feito em articulação com psicólogos, neuropsicólogos e professores, permitindo compreender o impacto das dificuldades no quotidiano da criança e definir adaptações adequadas.

Entre as estratégias apontadas estão recursos visuais, redução de cópias extensas, mais tempo nas avaliações e métodos multissensoriais. Após o diagnóstico, o acompanhamento procura desenvolver competências ligadas à leitura, escrita e compreensão textual através de actividades individualizadas.

“O objectivo não é apenas melhorar o desempenho escolar, mas também fortalecer a autonomia, autoestima e confiança da criança”, refere.

A especialista lembra que a dislexia não desaparece com o tempo, mas a intervenção adequada ajuda a desenvolver estratégias para lidar com as dificuldades. O trabalho inclui também orientação às famílias.

“Muitos pais acreditam que a criança é preguiçosa ou desinteressada, quando na verdade enfrenta uma dificuldade real”, afirma.

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O que a lei diz sobre educação inclusiva

O Decreto-Lei sobre educação inclusiva, publicado no Boletim Oficial de 29 de Fevereiro de 2024, estabelece um conjunto de medidas destinadas a garantir melhores condições de integração e acompanhamento de crianças e jovens com Necessidades Educativas Especiais (NEE) nas escolas.

O diploma aplica-se ao ensino público, privado e cooperativo, desde o pré-escolar até ao ensino secundário, e determina que todas as escolas devem assegurar igualdade de oportunidades, combate à discriminação e adaptação do processo de ensino às necessidades específicas de cada aluno.

Entre as medidas previstas estão adaptações curriculares, apoio pedagógico personalizado, condições especiais de avaliação e utilização de tecnologias de apoio. O decreto prevê ainda a redução do número de alunos por turma quando existirem estudantes com NEE permanente.

A legislação determina igualmente a criação de Equipas Multidisciplinares de Apoio à Educação Inclusiva (EMAEI) em todas as Delegações do Ministério da Educação. Essas equipas deverão integrar, pelo menos, um psicólogo educacional, um docente com experiência em educação especial e um técnico social, sendo responsáveis pela avaliação, acompanhamento e definição das medidas de apoio aos alunos sinalizados.

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Segundo o diploma, a sinalização pode ser feita por pais, professores, técnicos ou outros serviços que acompanhem a criança. Após esse processo, a equipa multidisciplinar deverá elaborar um relatório técnico-pedagógico e um Plano Educativo Individual (PEI), documento que define adaptações curriculares, estratégias de acompanhamento e formas de avaliação.

Os pais e encarregados de educação têm o direito de participar nas reuniões, acompanhar a elaboração do plano educativo e aceder às informações relacionadas com o processo escolar do educando.

No capítulo da avaliação, a legislação determina medidas como tempo suplementar nas provas, leitura de enunciados, adaptação de testes, pausas vigiadas e utilização de recursos tecnológicos, de acordo com as necessidades de cada aluno.

As escolas devem dispor de recursos humanos especializados, materiais adaptados e espaços adequados para garantir a inclusão e deve haver articulação entre Educação, Saúde, Segurança Social e autarquias para apoiar crianças e jovens com necessidades especiais.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.