Entre a promessa e o futuro: porque a democracia progressista latino americana não avança?

Por Ingrid Assunção Farias* A América Latina e Caribe são regiões que imaginaram outros modos de vida mesmo diante do colonialismo. Que não apenas sobreviveu diante do horror e da violência colonial e racista, mas criou. Criou manifestações culturais e políticas que forjaram a identidade de uma região inteira. Que mantém vivas, até hoje, as […]

Entre a promessa e o futuro: porque a democracia progressista latino americana não avança?

Por Ingrid Assunção Farias*

A América Latina e Caribe são regiões que imaginaram outros modos de vida mesmo diante do colonialismo. Que não apenas sobreviveu diante do horror e da violência colonial e racista, mas criou. Criou manifestações culturais e políticas que forjaram a identidade de uma região inteira. Que mantém vivas, até hoje, as tecnologias sociais que inventamos para habitar este território com dignidade. São essas tecnologias e saberes que usamos para aportar um projeto à própria esquerda, que mais uma vez requer que nós exijamos mais dela. 

Aqui em casa duas vezes por semana chega água. Eu, mulher negra, classe média, mãe solo, morando em Olinda (PE) em 2026. Aquela vida real, saca? Atravessada por classe, raça e território. Então eu fico pensando: será que a democracia é real quando não tem água na torneira? E se eu, mulher negra, ativista, defensora dos direitos humanos, me faço essa pergunta, imagina milhares de outras brasileiras em condições mais precárias que a minha que vivem se perguntando: afinal, de tudo que foi prometido com os projetos da esquerda e da democracia, o quanto foi entregue na nossa vida? E porque seguimos insistindo nessa tal democracia?

Não há como negar que houveram mudanças importantes que reduziram os danos causados pelas desigualdades, essas mudanças foram traduzidas em políticas públicas, políticas de Estado, ações afirmativas, e mesmo assim ainda não dão conta de nos colocar no lugar de direito e igualdade frente a todos os grupos sociais. Reparar é destruir uma estrutura inteira, é estar dispostas a criar o novo que todos dizem ser impossível! E essa é a tarefa que nós mulheres negras somos craque: gestar o impossível! 

Nas últimas semanas nosso coração ficou pequeno com o resultado das eleições na Colômbia. O revés,  é reflexo de uma região cada vez mais dividida — foi Argentina, Equador, Bolívia, Chile, Peru, Costa Rica, e agora Colômbia. Cada resultado confirmando algo que a gente já sentia no corpo antes de conseguir nomear com a cabeça: a esquerda não tem conseguido disputar nossos corações e mentes apresentando um projeto de futuro melhor como fez na minha geração. Geração essa, que chegou nesse “futuro” em que vivemos e não encontrou uma vida tão melhor como se esperava. Com certeza diferente, mas não com total garantia de direitos e bem viver para a maioria das brasileiras e brasileiros. E essa não é uma reflexão de quem desistiu. É uma fala de quem não pode se dar ao luxo de fingir que está tudo bem, porque só tem água aqui em casa duas vezes na semana.

A direita oferece ilusão com embalagem de solução. Faz isso sem profundidade, sem referências, utilizando apenas achismos infundados cientificamente, politicamente e até mesmo teologicamente. Mas a esquerda, que carrega projetos legítimos nos quais muitas de nós apostamos nossas vidas inteiras para realizar, quando não ousa radicalizar, começa a morrer no próprio discurso. 

Quando a política passa a vigiar a forma como as pessoas falam mais do que transformar as condições em que elas vivem, perde o fio que a conecta à vida real. Tratar as palavras como principal campo de batalha, isolado da organização concreta do povo, esvazia a força da luta e afasta exatamente quem deveria estar no centro do projeto da esquerda latino-americana. Não é coincidência que a comunicação radical comprometida com direitos sempre foi construída nessa região, através do teatro de rua, da poesia popular, do cordel, do funk, do hip hop, da roda de conversa. O trabalhador nunca precisou dominar a norma culta da elite para se organizar. A luta sempre foi feita na língua que o povo fala no cotidiano. Quando a esquerda transforma a linguagem em pedágio para a participação política, reproduz, sem perceber, a mesma lógica de exclusão que diz combater.

O que as urnas estão dizendo, eleição após eleição, não é que o povo virou conservador. É que o povo está cansado de uma promessa de futuro que não se reflete no agora. Uma promessa que tem cada vez menos a cara do nosso povo, e cada vez mais negocia os limites de nossas vidas, que não fala nossa língua, não entende que a política se mede no cotidiano, na torneira, na vaga da creche, no transporte de qualidade, na segurança de sair e voltar pra casa.

Mas eu não me lembro de nenhuma crise que tenha paralisado as mulheres negras. Nem a escravidão, maior projeto de morte, controle, e apagamento já executado na história da humanidade nos paralisou. Porque é nas crises que, nós povo negro, indígena e tradicional, temos as respostas mais criativas e comprometidas com o futuro do agora. A crise de legitimidade dos modelos disponíveis não pode ser apenas derrota, deve ser um convite à criação de espaço para construir algo que ainda não tem nome definitivo, mas que já tem projeto que mira uma sociedade mais saudável. As mulheres negras, indígenas e de comunidades tradicionais desta região estão inventando esse “novo” há décadas nos territórios, longe dos holofotes, dos gabinetes e das rodas de whisky.

Não estamos falando de utopia, mas sim de experiência acumulada. De tecnologia social comprovada. De saber político que foi construído e passado através de comunidades intencionais de afetos, resistência e estética, sem precisar de validação para ser real.

A democracia não pode ser assunto de eleição, precisa ser vista a semana toda, não apenas duas vezes por semana, quando a água chega aqui em casa, ou quando o jovem negro não encontra a bala do Estado naquele dia. Democracia é água na torneira, é direito de viver, e de VIVER BEM. É saneamento básico, escola, creche. É trabalho digno que não adoece. É a certeza de que o Estado sabe que você existe, e que sua vida importa agora, não numa promessa de futuro que sempre adia a vida presente.

A convocação é essa: a esquerda precisa reaprender e reconhecer como instrumento de mudança as ferramentas de resistência do movimento negro, feminista, indígenas, popular, dos trabalhadores do campo e da cidade. Precisa reconhecer que existem outras comunidades no mundo contemporâneo que constroem o sentido de nação, sejam mães, trabalhadores informais, brincantes populares, trancistas,  jovens do slam.

Existem muitas formas de se organizar baseadas nas experiências desses movimentos e dessa construção latino-americana de resistência. Somos a região que inventou modos de vida sob o colonialismo, que ousou dizer que a siesta faz parte do dia de trabalho. Que criou política e transformação social onde outros só viram margem. Podemos inventar também o projeto que esse momento exige, com cara e métodos do território, que fala várias línguas, bebe de muitas culturas e modos de vida, e mede sua força não nos debates internos, mas na água que chega, na vaga na creche, na mulher que dorme sem medo da chuva, e o nome desse projeto é BEM VIVER.

Entre direita e esquerda a gente continua negra, e empurrando a esquerda para a esquerda.

*Feminista negra latino americana

** Este é um artigo de opinião que está dentro da nossa política editorial, mas não reflete necessariamente o posicionamento da Revista Afirmativa