O copo meio cheio ou meio vazio?
O PAICV governa agora, o MpD observa dos bancos da oposição, ao lado da UCID, e a nação escuta promessas pronunciadas por vozes diferentes.Cada partido trouxe consigo a sua verdade, porque na política as verdades raramente caminham desacompanhadas das conveniências. O MpD, que ainda ontem governava, apresentou o retrato de um país que cresceu, consolidou a economia, conquistou respeito além-fronteiras, alargou programas sociais e abriu portas ao emprego e ao empreendedorismo.O PAICV, retornado aos corredores do poder, preferiu perguntar quem habita essa fotografia do crescimento económico. Se a economia cresce, por que motivo o custo de vida continua a subir mais depressa do que a esperança de tantas famílias. Se os indicadores sorriem, por que razão persistem as distâncias entre ilhas, entre bairros, entre aqueles que contam os ganhos e aqueles que contam as moedas. Defende, por isso, um Estado mais presente, menos espectador das desigualdades e mais artesão das oportunidades, como se bastasse trocar as mãos que seguram o leme para que o vento mudasse de direção.No meio deste diálogo de certezas incompatíveis, a UCID escolheu a difícil geografia do equilíbrio, reconhecendo avanços onde os encontrou, assinalando insuficiências onde elas permanecem, lembrando que a qualidade de vida não se mede apenas pelos gráficos que sobem, mas também pelo peso do cabaz de compras e pela oportunidade que chega a todas as ilhas.Talvez seja esta a velha condição dos debates sobre o Estado da Nação: não revelam apenas o estado do país, revelam sobretudo o estado da política. O governo e a oposição olham para a mesma paisagem como dois viajantes que, de margens opostas, juram contemplar mares diferentes. Entretanto, a nação, essa entidade silenciosa que raramente tem direito à palavra, continua a esperar que um dia o debate deixe de ser apenas um exercício de persuasão e se transforme, enfim, num exercício de visão e serviço público.Contudo, se nos afastarmos da retórica inerente ao debate político e dos lugares-comuns que caracterizam o discurso parlamentar, privilegiando uma leitura mais objetiva e sustentada da realidade nacional, constataremos que o país não se encontra nem perante um cenário de prosperidade plena, nem perante uma situação de colapso institucional ou socioeconómico. A trajetória de Cabo Verde revela, antes, um quadro de progressos relevantes coexistindo com vulnerabilidades estruturais, desafios persistentes e constrangimentos que ainda condicionam o seu processo de desenvolvimento.Nesta perspetiva, uma avaliação rigorosa do Estado da Nação pode ser estruturada em torno de três dimensões analíticas complementares. A primeira incide sobre o balanço da governação cessante, procurando aferir os seus resultados em matéria de desempenho macroeconómico, qualidade da governação, consolidação institucional, coesão social e inserção internacional, bem como as limitações e os défices de políticas públicas que permaneceram por resolver. A segunda dimensão centra-se na agenda governativa da nova maioria, analisando as expectativas geradas pelas suas propostas de política pública, a coerência do seu programa de governação, os potenciais efeitos redistributivos das medidas anunciadas e as controvérsias que suscitam quanto à sua sustentabilidade fiscal, eficácia económica e capacidade de implementação. Finalmente, uma terceira dimensão propõe uma análise prospetiva da nação.Começando pelo governo cessante, importa reconhecer os progressos alcançados. A economia registou um crescimento assinalável, verificou-se um reforço do Estado social, com maior investimento na educação, na saúde e nas políticas de proteção social, bem como avanços na redução do défice habitacional. Acresce a manutenção da estabilidade institucional e da confiança dos agentes económicos e dos parceiros internacionais.Porém, estes resultados não foram acompanhados por uma transformação estrutural da economia. Os setores primários (agricultura, pescas, aquacultura e pecuária) permaneceram pouco modernizados e empresarializados, limitando a criação de valor acrescentado, a industrialização e a absorção da mão de obra jovem. O setor industrial, por seu turno, continuou praticamente estagnado, perpetuando uma estrutura económica excessivamente dependente dos serviços.Esta realidade contribuiu para a intensificação da emigração de jovens, com a consequente perda de capital humano, redução da força de trabalho e aceleração do envelhecimento demográfico. Nenhum país deveria envelhecer antes de atingir um nível elevado de desenvolvimento. Por isso, Cabo Verde precisa de políticas que, além de reter os seus jovens, criem incentivos para atrair população em idade ativa e qualificada, invertendo a atual tendência demográfica e reforçando as bases do crescimento económico sustentável.Quanto ao novo ciclo governativo, os principais desafios estruturais do país devem ser assumidos como prioridades estratégicas. Entre eles, destaca-se a necessidade de criar condiçõe
O PAICV governa agora, o MpD observa dos bancos da oposição, ao lado da UCID, e a nação escuta promessas pronunciadas por vozes diferentes.
Cada partido trouxe consigo a sua verdade, porque na política as verdades raramente caminham desacompanhadas das conveniências. O MpD, que ainda ontem governava, apresentou o retrato de um país que cresceu, consolidou a economia, conquistou respeito além-fronteiras, alargou programas sociais e abriu portas ao emprego e ao empreendedorismo.
O PAICV, retornado aos corredores do poder, preferiu perguntar quem habita essa fotografia do crescimento económico. Se a economia cresce, por que motivo o custo de vida continua a subir mais depressa do que a esperança de tantas famílias. Se os indicadores sorriem, por que razão persistem as distâncias entre ilhas, entre bairros, entre aqueles que contam os ganhos e aqueles que contam as moedas. Defende, por isso, um Estado mais presente, menos espectador das desigualdades e mais artesão das oportunidades, como se bastasse trocar as mãos que seguram o leme para que o vento mudasse de direção.
No meio deste diálogo de certezas incompatíveis, a UCID escolheu a difícil geografia do equilíbrio, reconhecendo avanços onde os encontrou, assinalando insuficiências onde elas permanecem, lembrando que a qualidade de vida não se mede apenas pelos gráficos que sobem, mas também pelo peso do cabaz de compras e pela oportunidade que chega a todas as ilhas.
Talvez seja esta a velha condição dos debates sobre o Estado da Nação: não revelam apenas o estado do país, revelam sobretudo o estado da política. O governo e a oposição olham para a mesma paisagem como dois viajantes que, de margens opostas, juram contemplar mares diferentes. Entretanto, a nação, essa entidade silenciosa que raramente tem direito à palavra, continua a esperar que um dia o debate deixe de ser apenas um exercício de persuasão e se transforme, enfim, num exercício de visão e serviço público.
Contudo, se nos afastarmos da retórica inerente ao debate político e dos lugares-comuns que caracterizam o discurso parlamentar, privilegiando uma leitura mais objetiva e sustentada da realidade nacional, constataremos que o país não se encontra nem perante um cenário de prosperidade plena, nem perante uma situação de colapso institucional ou socioeconómico. A trajetória de Cabo Verde revela, antes, um quadro de progressos relevantes coexistindo com vulnerabilidades estruturais, desafios persistentes e constrangimentos que ainda condicionam o seu processo de desenvolvimento.
Nesta perspetiva, uma avaliação rigorosa do Estado da Nação pode ser estruturada em torno de três dimensões analíticas complementares. A primeira incide sobre o balanço da governação cessante, procurando aferir os seus resultados em matéria de desempenho macroeconómico, qualidade da governação, consolidação institucional, coesão social e inserção internacional, bem como as limitações e os défices de políticas públicas que permaneceram por resolver. A segunda dimensão centra-se na agenda governativa da nova maioria, analisando as expectativas geradas pelas suas propostas de política pública, a coerência do seu programa de governação, os potenciais efeitos redistributivos das medidas anunciadas e as controvérsias que suscitam quanto à sua sustentabilidade fiscal, eficácia económica e capacidade de implementação. Finalmente, uma terceira dimensão propõe uma análise prospetiva da nação.
Começando pelo governo cessante, importa reconhecer os progressos alcançados. A economia registou um crescimento assinalável, verificou-se um reforço do Estado social, com maior investimento na educação, na saúde e nas políticas de proteção social, bem como avanços na redução do défice habitacional. Acresce a manutenção da estabilidade institucional e da confiança dos agentes económicos e dos parceiros internacionais.
Porém, estes resultados não foram acompanhados por uma transformação estrutural da economia. Os setores primários (agricultura, pescas, aquacultura e pecuária) permaneceram pouco modernizados e empresarializados, limitando a criação de valor acrescentado, a industrialização e a absorção da mão de obra jovem. O setor industrial, por seu turno, continuou praticamente estagnado, perpetuando uma estrutura económica excessivamente dependente dos serviços.
Esta realidade contribuiu para a intensificação da emigração de jovens, com a consequente perda de capital humano, redução da força de trabalho e aceleração do envelhecimento demográfico. Nenhum país deveria envelhecer antes de atingir um nível elevado de desenvolvimento. Por isso, Cabo Verde precisa de políticas que, além de reter os seus jovens, criem incentivos para atrair população em idade ativa e qualificada, invertendo a atual tendência demográfica e reforçando as bases do crescimento económico sustentável.
Quanto ao novo ciclo governativo, os principais desafios estruturais do país devem ser assumidos como prioridades estratégicas. Entre eles, destaca-se a necessidade de criar condições para reter e atrair jovens, alinhando as políticas públicas às suas aspirações em matéria de emprego e rendimento, habitação, educação, empreendedorismo e qualidade de vida nas diferentes regiões.
Ao mesmo tempo, o novo governo deverá acelerar a transformação estrutural da economia, apostando na modernização e empresarialização dos setores primários e na dinamização da atividade industrial, áreas que permaneceram aquém do seu potencial no ciclo governativo anterior. Paralelamente, torna-se indispensável modernizar a Administração Pública, aprofundando a digitalização dos serviços, simplificando procedimentos administrativos e investindo na qualificação dos recursos humanos, de modo a aumentar a eficiência do Estado e a qualidade da prestação dos serviços públicos.
Finalmente, numa análise prospetiva da nação, importa, mais do que avaliar governos, refletir sobre o modelo de desenvolvimento que Cabo Verde pretende construir nas próximas décadas. Isso implica definir prioridades estratégicas capazes de reforçar a competitividade da economia, inverter a tendência de envelhecimento demográfico, valorizar o capital humano, acelerar a transição digital e energética, aprofundar a integração regional e internacional e fortalecer a resiliência face às vulnerabilidades climáticas, sociais e económicas.
Em suma, o verdadeiro Estado da Nação mede-se menos pelo desempenho de um governo e mais pela capacidade do país de construir consensos em torno de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável, inclusivo e gerador de oportunidades para as gerações presentes e futuras.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1288 de 05 de Agosto de 2026.

