Os Tubarões Azuis ou o Futebol como Sensibilidade partilhada por um Povo Histórico

Mas quando pura verborreia desqualifica-se e aborta-se lá onde ela mal nasce, pois traduz a ausência de projeto humanista. Mas coloquemos entre parêntesis a insignificância doxa de reduzir uns à pequenez e outros à grandeza e, neste sentido, darmos voz, alma e expressão ao que deveras importa: a performance desportiva, cultural e humanista que os Tubarões Azuis têm vindo a manifestar no cenário dessa Nação-mundo que é Cabo Verde.Inspiremos nas belas e significantes palavras de Fernando Pessoa, precisamente quando expressa que “sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 2005, Lisboa, Assírio & Alvim), para podermos estar em condições de afirmar, a respeito da seleção de Cabo Verde no mundial, que a equipa dos Tubarões Azuis ultrapassa a mera geografia vulcânica das crioulas ilhas cabo-verdianas, imprimindo-lhes sentidos e significados histórico-desportivos, ético-humanistas e simbólico-culturais, dando azos a uma mundividência cabo-verdiana em espiritual gesto do seu expressar. Se é verdade que pequenas são as ilhas, em termos geográficos, e que, igualmente, pequena é a sua população, em termos numéricos, não é menos verdade que o dinamismo da vivência do futebol empreendido pelos Tubarões Azuis imprime uma receção sentimental à altura do Povo destas ilhas que configuram, por sua vez, essa Nação-mundo que é Cabo Verde. O desporto, neste caso concreto o futebol, tem-se revelado, nestas ilhas, em qual grandeza de alma, espírito de resistência e transcendência. Não se circunscreve à logica económico-empresarial ou mesmo à mera atividade física ou técnica dos atletas, por mais que sejam vitais estas dimensões. O próprio reflexo do trabalho empreendido pelos nossos dirigentes da ciência do futebol no mundial, sem aqui olvidar toda a engrenagem tecno-humana e cultural que lhes precedeu na lógica espácio-temporal, é exemplo concreto de que uma visão de complexidade deve poder falar mais alto. Uma tal visão, por ser deveras complexa (prestemos vénia a esse estruturante conceito do saudoso Edgar Morin), fez religar, na praxis do futebol da nossa seleção, as dimensões económicas, psíquicas, emocionais, afetivas, culturais e civilizacionais. O desempenho dos Tubarões Azuis é exemplo real de que o futebol é ciência. É vida. Faz(-se) história, mormente numa realidade sociocultural onde, cada vez mais, se vá exercendo em liberdade e confiança de si a própria destinação histórica do povo cabo-verdiano. A mera dimensão económica do futebol não nos levaria a tais distinções e posicionamentos. Só uma visão complexa de pensamento, de tática e de ação nos elevaria ao mais alto de nós mesmos na circunstância. Rastreando um enunciado do nosso poeta-pensador da ilha das flores, Eugénio Tavares (1867-1930), para o contexto do futebol empreendido pelos Tubarões Azuis, diríamos que a nossa seleção é contra “a ruína do sentimento nacional” (Eugénio Tavares, Pelos Jornais, 1997, Praia, ICLD). De facto, a sua performance desportiva e humana, ato de cultura e de valores como tem vindo a mostrar suas ações, tem-se revelado em qual união de uma Nação-mundo. Em autêntica prática difusora de uma identidade que se quer continuar a expressar além das nossas ilhas, congregando, em torno de si, várias manifestações culturais e magico-festivas. É o próprio sentimento de pertença, gesto de respeitar e ser respeitado, em suma, uma partilha de tradições, culturas e lugares que tem vindo a despertar atenção dos cabo-verdianos.Existe todo um modo de pensamento subsumido, tanto na concreta performance futebolística dos Tubarões Azuis, bem como no efeito “estético” (sentido original do conceito: sensação, perceção, sentimento) desencadeado no povo cabo-verdiano que, pelas várias latitudes, vai-se comemorando como ser diaspórico que deveras é, e que, o futebol, é exemplo do poder da nossa diáspora, podendo tornar-se num paradigma de inspiração cultural e humana dessa força que transcende as ilhas-mundo. Vozinha, o guarda-redes, elevou a imagem da seleção e de Cabo Verde, começando pelo histórico jogo contra a campeã Espanha (ou mesmo contra o Uruguai, também histórico campeão), tendo se tornado em um mito, e, não raras vezes, apontado pela imprensa e pelas redes sociais como um nome que poderá promover o nosso país no campo do turismo ou da ciência do futebol. Mas retomemos a ideia avançada: há todo um pensamento subsumido no espiritual trabalho da nossa seleção de futebol. Um trabalho que não nasceu do nada, embora convém sublinhar que talentos sempre houveram nestas Ilhas do Meio do Mundo – emprestando aqui o belo título de um dos livros do saudoso poeta Osvaldo Osório. O efeito que ora se vive nessa Nação-mundo implicou tamanho esforço a vários níveis. A (con)vivência e tamanha emoção dos últimos tempos (os trabalhosos empates com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita) mostra o quão o futebol traduz beleza de alma, espetáculo humano gestado entre o belo e o sublime, qual (re)ligação sentimental

Os Tubarões Azuis ou o Futebol como Sensibilidade partilhada por um Povo Histórico

Mas quando pura verborreia desqualifica-se e aborta-se lá onde ela mal nasce, pois traduz a ausência de projeto humanista. Mas coloquemos entre parêntesis a insignificância doxa de reduzir uns à pequenez e outros à grandeza e, neste sentido, darmos voz, alma e expressão ao que deveras importa: a performance desportiva, cultural e humanista que os Tubarões Azuis têm vindo a manifestar no cenário dessa Nação-mundo que é Cabo Verde.

Inspiremos nas belas e significantes palavras de Fernando Pessoa, precisamente quando expressa que “sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 2005, Lisboa, Assírio & Alvim), para podermos estar em condições de afirmar, a respeito da seleção de Cabo Verde no mundial, que a equipa dos Tubarões Azuis ultrapassa a mera geografia vulcânica das crioulas ilhas cabo-verdianas, imprimindo-lhes sentidos e significados histórico-desportivos, ético-humanistas e simbólico-culturais, dando azos a uma mundividência cabo-verdiana em espiritual gesto do seu expressar.

Se é verdade que pequenas são as ilhas, em termos geográficos, e que, igualmente, pequena é a sua população, em termos numéricos, não é menos verdade que o dinamismo da vivência do futebol empreendido pelos Tubarões Azuis imprime uma receção sentimental à altura do Povo destas ilhas que configuram, por sua vez, essa Nação-mundo que é Cabo Verde. O desporto, neste caso concreto o futebol, tem-se revelado, nestas ilhas, em qual grandeza de alma, espírito de resistência e transcendência. Não se circunscreve à logica económico-empresarial ou mesmo à mera atividade física ou técnica dos atletas, por mais que sejam vitais estas dimensões. O próprio reflexo do trabalho empreendido pelos nossos dirigentes da ciência do futebol no mundial, sem aqui olvidar toda a engrenagem tecno-humana e cultural que lhes precedeu na lógica espácio-temporal, é exemplo concreto de que uma visão de complexidade deve poder falar mais alto. Uma tal visão, por ser deveras complexa (prestemos vénia a esse estruturante conceito do saudoso Edgar Morin), fez religar, na praxis do futebol da nossa seleção, as dimensões económicas, psíquicas, emocionais, afetivas, culturais e civilizacionais.

O desempenho dos Tubarões Azuis é exemplo real de que o futebol é ciência. É vida. Faz(-se) história, mormente numa realidade sociocultural onde, cada vez mais, se vá exercendo em liberdade e confiança de si a própria destinação histórica do povo cabo-verdiano. A mera dimensão económica do futebol não nos levaria a tais distinções e posicionamentos. Só uma visão complexa de pensamento, de tática e de ação nos elevaria ao mais alto de nós mesmos na circunstância. Rastreando um enunciado do nosso poeta-pensador da ilha das flores, Eugénio Tavares (1867-1930), para o contexto do futebol empreendido pelos Tubarões Azuis, diríamos que a nossa seleção é contra “a ruína do sentimento nacional” (Eugénio Tavares, Pelos Jornais, 1997, Praia, ICLD). De facto, a sua performance desportiva e humana, ato de cultura e de valores como tem vindo a mostrar suas ações, tem-se revelado em qual união de uma Nação-mundo. Em autêntica prática difusora de uma identidade que se quer continuar a expressar além das nossas ilhas, congregando, em torno de si, várias manifestações culturais e magico-festivas. É o próprio sentimento de pertença, gesto de respeitar e ser respeitado, em suma, uma partilha de tradições, culturas e lugares que tem vindo a despertar atenção dos cabo-verdianos.

Existe todo um modo de pensamento subsumido, tanto na concreta performance futebolística dos Tubarões Azuis, bem como no efeito “estético” (sentido original do conceito: sensação, perceção, sentimento) desencadeado no povo cabo-verdiano que, pelas várias latitudes, vai-se comemorando como ser diaspórico que deveras é, e que, o futebol, é exemplo do poder da nossa diáspora, podendo tornar-se num paradigma de inspiração cultural e humana dessa força que transcende as ilhas-mundo. Vozinha, o guarda-redes, elevou a imagem da seleção e de Cabo Verde, começando pelo histórico jogo contra a campeã Espanha (ou mesmo contra o Uruguai, também histórico campeão), tendo se tornado em um mito, e, não raras vezes, apontado pela imprensa e pelas redes sociais como um nome que poderá promover o nosso país no campo do turismo ou da ciência do futebol.

Mas retomemos a ideia avançada: há todo um pensamento subsumido no espiritual trabalho da nossa seleção de futebol. Um trabalho que não nasceu do nada, embora convém sublinhar que talentos sempre houveram nestas Ilhas do Meio do Mundo – emprestando aqui o belo título de um dos livros do saudoso poeta Osvaldo Osório. O efeito que ora se vive nessa Nação-mundo implicou tamanho esforço a vários níveis. A (con)vivência e tamanha emoção dos últimos tempos (os trabalhosos empates com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita) mostra o quão o futebol traduz beleza de alma, espetáculo humano gestado entre o belo e o sublime, qual (re)ligação sentimental de um povo histórico. Uma estética! Aliás, não por acaso, Francesco Farioli, o treinador-campeão do Futebol Clube do Porto, formado em filosofia pela italiana universidade de Florença, escreveu a sua tese sobre “A Estética do Jogo e o Papel dos Guarda-redes”, defendendo que o futebol é um reflexo da vida: eis uma dimensão verdadeiramente filosófica do futebol, que, na gesta cabo-verdiana dos poieticos voos do Vozinha, está a fazer presença na cultura dos dirigentes e futebolistas.

As ideias de Manuel Sérgio (1933-2025), reconhecido filósofo do futebol e professor catedrático português, bem praticadas por Mourinho, seu antigo aluno e amigo (como confessa em livros e palestras), e por tantos outros treinadores de alto sucesso, apontam para o desporto como um espaço de transcendência que encaminha o ser humano para o absoluto. Não poderia estar mais certo o filósofo nas suas teorias acerca do futebol. Ideias que, segundo ele, nasceram da própria prática e diálogo com futebolistas e treinadores, mostrando que não há desporto sem ética e sem cientificidade. Uma pessoa com sentido da vida certamente será melhor atleta do que aquela cujo sentido se resume ao simplesmente físico. «O praticante desportivo não é fundamentalmente fisiologia, mas complexidade que subjectivamente (ou intersubjectivamente) se revela. […] numa totalidade tudo tem a ver com tudo, ou melhor, tudo se relaciona com tudo; o especialista em desporto, à luz da ciência da motricidade humana, deve ter um perfil multi e transdisciplinar» (Manuel Sérgio, O Desporto e a Motricidade Humana, 2010, s/l, Cadernos de Educação Física, v.9, nº 16, pp.111-122).

Em jeito de posfácio gostaríamos de prestar devida vénia aos Tubarões azuis, a todos os jogadores, dirigentes e ao seu distinto treinador, pelo trabalho empreendido e pelos desafios apontados, onde o futebol, seguindo os caminhos da verdade, é ciência, vida, cultura e formação humana integral da pessoa. Da pessoa que deve estar antes e depois de qualquer tática, técnica, treino ou estratégia. No fundo, e ao que nos parece, é o que deveras se tem vindo a fazer. Os Tubarões azuis fazem parte do processo histórico-crítico e cultural da busca de sentido da Nação-mundo que somos e vamo-nos sendo no curso da nossa historicidade.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1283 de 01 de Julho de 2026.