Alterações climáticas obrigam seguradoras a reinventar protecção contra catástrofes

Na intervenção principal, Carla Sá Pereira, administradora da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) de Portugal, descreveu um sector confrontado com uma mudança estrutural. Em 2024, as perdas seguradas provocadas por catástrofes naturais atingiram cerca de 140 mil milhões de dólares, o terceiro valor mais elevado desde 1980. Em 2025, ultrapassaram novamente os 100 mil milhões de dólares, assinalando o sexto ano consecutivo acima desse patamar. Mais preocupante do que os números, afirmou, é a tendência: aquilo que durante décadas era considerado excepcional passou a fazer parte da normalidade.Segundo a responsável, as alterações climáticas estão a aumentar simultaneamente a perigosidade dos fenómenos naturais, a vulnerabilidade das infraestruturas e a exposição de pessoas e bens. Ao mesmo tempo, mais de metade das perdas económicas provocadas por catástrofes continua sem cobertura de seguros, revelando um défice de protecção que ameaça tornar-se cada vez mais difícil de suportar.A resposta passa por integrar os riscos climáticos na gestão das seguradoras, reforçar os mecanismos de supervisão e desenvolver novas formas de financiamento das catástrofes. Carla Sá Pereira apontou o crescimento das soluções paramétricas, das obrigações de catástrofe e dos fundos de partilha de risco entre o sector privado e o Estado, referindo o novo Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas criado em Portugal como exemplo de um modelo que combina sustentabilidade financeira, solidariedade e adaptação climática.Famílias e empresas continuam sem seguroAs preocupações encontram eco em Cabo Verde, um dos países mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas. Para Luís Leite, administrador executivo da Garantia Seguros, a tempestade Erin, que atingiu o país em 2025, demonstrou tanto a capacidade de resposta das seguradoras como as fragilidades do mercado. A companhia liquidou indemnizações superiores a 91 milhões de escudos em menos de três meses, mas o episódio evidenciou que uma parte significativa das famílias e empresas continua sem seguro ou mantém coberturas inferiores ao valor real dos bens.Na sua perspectiva, o principal desafio já não é apenas desenvolver novos produtos, mas criar uma verdadeira cultura de prevenção e gestão do risco. Isso passa por reforçar a literacia sobre seguros, melhorar a partilha de informação entre instituições e incentivar mecanismos que alarguem a protecção a um maior número de cidadãos e empresas.Tempestade Erin alterou a percepção dos clientesTambém Luís Vasconcelos, presidente do conselho de administração da IMPAR Seguros, considera que a experiência da tempestade Erin alterou a percepção dos clientes. Se antes muitas empresas encaravam as coberturas contra fenómenos naturais como um custo dispensável, hoje cresce a consciência de que representam um instrumento essencial de protecção, sobretudo no turismo e no património empresarial.Os dois responsáveis convergem igualmente noutra conclusão: os prémios dos seguros tenderão a aumentar à medida que os riscos climáticos se agravem e o custo do resseguro internacional continue a subir. Num mercado da dimensão de Cabo Verde, essa pressão é inevitável. Ainda assim, defendem que o acesso aos grandes resseguradores internacionais garante capacidade financeira para responder a eventos extremos, desde que as seguradoras mantenham níveis adequados de solvência e uma gestão prudente do risco.Mais do que um problema exclusivo das seguradoras, os intervenientes defenderam que as alterações climáticas exigem uma resposta coordenada entre Estado, regulador e sector privado. Entre as soluções apontadas estão o reforço da prevenção, o aumento da penetração dos seguros e a criação de mecanismos nacionais capazes de repartir os custos financeiros das futuras catástrofes. A mensagem deixada na conferência foi clara: perante riscos cada vez mais frequentes e dispendiosos, a capacidade de adaptação determinará não apenas a resiliência do mercado segurador, mas também a capacidade da economia para recuperar quando ocorrer o próximo grande desastre.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.

Alterações climáticas obrigam seguradoras a reinventar protecção contra catástrofes

Na intervenção principal, Carla Sá Pereira, administradora da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) de Portugal, descreveu um sector confrontado com uma mudança estrutural. Em 2024, as perdas seguradas provocadas por catástrofes naturais atingiram cerca de 140 mil milhões de dólares, o terceiro valor mais elevado desde 1980. Em 2025, ultrapassaram novamente os 100 mil milhões de dólares, assinalando o sexto ano consecutivo acima desse patamar. Mais preocupante do que os números, afirmou, é a tendência: aquilo que durante décadas era considerado excepcional passou a fazer parte da normalidade.

Segundo a responsável, as alterações climáticas estão a aumentar simultaneamente a perigosidade dos fenómenos naturais, a vulnerabilidade das infraestruturas e a exposição de pessoas e bens. Ao mesmo tempo, mais de metade das perdas económicas provocadas por catástrofes continua sem cobertura de seguros, revelando um défice de protecção que ameaça tornar-se cada vez mais difícil de suportar.

A resposta passa por integrar os riscos climáticos na gestão das seguradoras, reforçar os mecanismos de supervisão e desenvolver novas formas de financiamento das catástrofes. Carla Sá Pereira apontou o crescimento das soluções paramétricas, das obrigações de catástrofe e dos fundos de partilha de risco entre o sector privado e o Estado, referindo o novo Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas criado em Portugal como exemplo de um modelo que combina sustentabilidade financeira, solidariedade e adaptação climática.

Famílias e empresas continuam sem seguro

As preocupações encontram eco em Cabo Verde, um dos países mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas.

Para Luís Leite, administrador executivo da Garantia Seguros, a tempestade Erin, que atingiu o país em 2025, demonstrou tanto a capacidade de resposta das seguradoras como as fragilidades do mercado. A companhia liquidou indemnizações superiores a 91 milhões de escudos em menos de três meses, mas o episódio evidenciou que uma parte significativa das famílias e empresas continua sem seguro ou mantém coberturas inferiores ao valor real dos bens.

Na sua perspectiva, o principal desafio já não é apenas desenvolver novos produtos, mas criar uma verdadeira cultura de prevenção e gestão do risco. Isso passa por reforçar a literacia sobre seguros, melhorar a partilha de informação entre instituições e incentivar mecanismos que alarguem a protecção a um maior número de cidadãos e empresas.

Tempestade Erin alterou a percepção dos clientes

Também Luís Vasconcelos, presidente do conselho de administração da IMPAR Seguros, considera que a experiência da tempestade Erin alterou a percepção dos clientes. Se antes muitas empresas encaravam as coberturas contra fenómenos naturais como um custo dispensável, hoje cresce a consciência de que representam um instrumento essencial de protecção, sobretudo no turismo e no património empresarial.

Os dois responsáveis convergem igualmente noutra conclusão: os prémios dos seguros tenderão a aumentar à medida que os riscos climáticos se agravem e o custo do resseguro internacional continue a subir. Num mercado da dimensão de Cabo Verde, essa pressão é inevitável. Ainda assim, defendem que o acesso aos grandes resseguradores internacionais garante capacidade financeira para responder a eventos extremos, desde que as seguradoras mantenham níveis adequados de solvência e uma gestão prudente do risco.

Mais do que um problema exclusivo das seguradoras, os intervenientes defenderam que as alterações climáticas exigem uma resposta coordenada entre Estado, regulador e sector privado. Entre as soluções apontadas estão o reforço da prevenção, o aumento da penetração dos seguros e a criação de mecanismos nacionais capazes de repartir os custos financeiros das futuras catástrofes. A mensagem deixada na conferência foi clara: perante riscos cada vez mais frequentes e dispendiosos, a capacidade de adaptação determinará não apenas a resiliência do mercado segurador, mas também a capacidade da economia para recuperar quando ocorrer o próximo grande desastre.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.