Copa da hostilidade
A Copa do Mundo de 2026 entrou em campo com um 3 a 3 que ninguém queria ver: Estados Unidos, racismo e xenofobia contra seleções, árbitros e jornalistas do Sul Global. O que deveria ser festa de hospitalidade virou sala de revista e hostilidade. A repórter Karine Alves, descreveu ao vivo no semana passada 9 […] O conteúdo Copa da hostilidade aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
A Copa do Mundo de 2026 entrou em campo com um 3 a 3 que ninguém queria ver: Estados Unidos, racismo e xenofobia contra seleções, árbitros e jornalistas do Sul Global.
O que deveria ser festa de hospitalidade virou sala de revista e hostilidade. A repórter Karine Alves, descreveu ao vivo no semana passada 9 de junho o que sentiu ao desembarcar: “Pedirem para eu levantar o meu cabelo de uma forma um pouco ríspida. Eu fiquei sem ação”. Não foi caso isolado. “Muitas mulheres negras passam por isso e reclamam disso na chegada aos Estados Unidos”, completou. Enquanto isso, seus colegas brancos de profissão passaram direto.
O roteiro se repete com sotaque diferente. A delegação do Senegal foi revistada ainda na pista, com detectores de metal, sapatos tirados e solas inspecionadas sob escolta policial antes mesmo da área de desembarque.
Aymen Hussein, principal jogador do Iraque e autor do gol da classificação, ficou 7 horas detido em Chicago para “verificação”. Omar Abdulkadir Artan, eleito melhor árbitro da África em 2025 e primeiro somali escalado para uma Copa, foi barrado e deportado ao pisar em solo americano, mesmo com visto e passaporte diplomático.
A FIFA não explicou. Os EUA também não. Explicar seria admitir que a regra do jogo mudou: passaporte, pele e origem agora definem se você entra em campo ou volta para casa.
Isso não é falha de sistema. É o sistema. Na última Copa sediada pelos EUA, em 1994, o país vendia a imagem de terra da diversidade e do melting pot. Em 2026, sob o segundo mandato de Trump e com retórica anti-imigração como política de Estado, o recado é outro: alguns convidados são mais convidados que outros.
Dos 104 jogos, 78 serão em território americano, incluindo toda a fase final. A FIFA, ao concentrar o torneio ali, chancelou um projeto geopolítico que trata torcedores, atletas e jornalistas africanos, árabes e latino-americanos como ameaça antes de serem visitantes. Hospitalidade virou interrogatório. Celebração virou triagem.
A mídia brasileira, desta vez, não normalizou. A Fenaj denunciou sexismo e discriminação. A presidente da Federação Internacional de Jornalistas, Zuliana Lainez, foi direta: “Todos os profissionais da mídia têm o direito de exercer seu trabalho em condições de segurança, dignidade e igualdade, livres de qualquer forma de discriminação”.
A abordagem ao Senegal, o árbitro deportado, os vistos negados a jornalistas iranianos. Não são eventos pontuais. São padrão. E padrão tem nome: racismo institucional com carimbo de alfândega.
Uma Copa que se diz sobre união não pode começar separando quem pode entrar no país e como deve entrar. Se o mundo inteiro joga, o mundo inteiro tem que ser tratado como gente. Quando a imigração vira banco de reservas para negros, muçulmanos e latino-americanos, o torneio já perdeu de goleada.
E não adianta a FIFA erguer o discurso de “quebra de preconceitos” enquanto terceiriza a recepção para um governo que faz campanha contra quem vem de fora. O futebol não pediu essa prorrogação. Mas está sendo obrigado a jogar. E, por enquanto, o placar é vergonha 3, diversidade 0.
O conteúdo Copa da hostilidade aparece primeiro em Revista Raça Brasil.