Forró Colorido propõe rompimento com os padrões de gênero na dança para a comunidade LGBTQIA+ de Salvador (BA)

Criada pela professora Joice Soares, a iniciativa se consolidou como um espaço seguro para aprender a dançar forró de forma acolhedora

Forró Colorido propõe rompimento com os padrões de gênero na dança para a comunidade LGBTQIA+ de Salvador (BA)

Por Jamile Novaes, Luana Miranda e Patrícia Rosa

“Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais…” 

O nosso país Nordeste se prepara e aguarda ansioso pela festa popular mais amada do ano: o São João. Amendoim cozido, bandeirolas coloridas enfeitando as ruas e as quadrilhas prontas para entrar em cena. Já é quase possível sentir o calor das fogueiras, que prontas aguardam apenas a primeira faísca para aquecer os nossos corpos e corações.

Estamos contando as horas para tirar as botas do armário e dançar ao som dos clássicos do forró. E por aqui, vale dançar homem com homem, mulher com mulher, dançar agarradinho ou separado. 

O que não vale mesmo é pisar no pé da parceira ou parceiro, desrespeitar o corpo alheio, ou reproduzir LGBTfobia e papéis de gênero ultrapassados no meio do arrasta-pé. E foi pensando nisso que a professora de dança Joice Soares teve a ideia de criar o Forró Colorido, um projeto voltado para o público LGBTQIA+ de Salvador (BA).

Tudo começou quando uma amiga cantora a convidou para contribuir com a produção de uma festa de forró para a comunidade. Joice, que é professora desse ritmo desde 2021, começou a pensar sobre como a presença de pessoas LGBTQIA+ ainda é muito baixa nas aulas de forró e resolveu oferecer quatro aulas preparatórias para o evento. Embora a festa nem tenha chegado a acontecer, aquelas primeiras aulas abriram caminhos para a consolidação da iniciativa que já dura um ano.

“Quando eu pensei nesse espaço de forró, queria criar um ambiente onde as pessoas não ficassem com receio de fazer parte dele. Queria que as pessoas vissem e falassem ‘eu acho que ali me cabe, vou ser bem-vinda neste espaço’. O Forró Colorido é o primeiro grupo pensado para trazer a bandeira da comunidade LGBT para o universo do forró na sala de aula”, explica.

Com três turmas fixas semanais, atualmente o Forró Colorido conta, em média, com 30 alunas. Logo nos primeiros encontros, quando Joice explicou a proposta do projeto e perguntou às alunas sobre quais motivos as afastavam, a resposta foi unânime: receio de como seria o contato e a troca com homens e desconforto com o padrão de sempre serem conduzidas por eles.

A partir desse diagnóstico, ela entendeu que precisaria desenvolver uma metodologia que deixasse suas alunas confortáveis para se posicionar da forma como se sentem mais à vontade na dança. “Na aula, a gente pergunta quem é que quer aprender a conduzir, quem quer aprender a ser conduzida e quem quer aprender as duas coisas. O grande diferencial do Forró Colorido é possibilitar que as pessoas se percebam no lugar onde elas querem estar.”

Para a médica Adriane Barreto, o Forró Colorido é um espaço seguro, no qual ela pode vivenciar a dança para além dos papeis de gênero que lhe são socialmente impostos. “Eu venho aqui e faço minha aula como condutora, mantenho minha feminilidade, mantenho meu lugar de mulher lésbica, danço com outras meninas sem problema nenhum”, afirma. Ela conta ainda que essa metodologia lhe permite ter mais confiança, inclusive para dançar em lugares que não sejam tão acolhedores e receptivos ao seu corpo e sua identidade. 

“Acho que aqui é um treinamento de força para que a gente chegue em outros espaços e pense ‘eu vou fazer, eu posso fazer’. Tenho mais empoderamento para convidar outra mulher para dançar, com todo o respeito que uma dança tem direito”, comemora.

A metodologia acolhedora e inclusiva da professora Joice extrapola a sala de aula e estimula suas alunas a assumirem a condução dos seus próprios corpos e de suas vidas.  “Esse cuidado que temos aqui faz que as pessoas consigam não só se perceber em outros ambientes como indivíduos plurais, mas também entendendo que é um direito delas estar nesses lugares”, afirma.

Acostumada à rigidez do balé, a funcionária pública, Karol Esteves, começou a participar das aulas em meados de 2025, a convite de sua melhor amiga. No Forró Colorido, ela encontrou um espaço no qual poderia experimentar a liberdade através da dança, sem qualquer tipo de tensão ou julgamento. “Eu venho desse processo de me reconhecer e me permitir, e esse espaço me deu lugar para isso. Estar onde eu sei que outras mulheres podem mostrar a representatividade delas, me fez enxergar que eu também posso existir dessa forma.”

Seus primeiros contatos com as aulas aconteceram durante um momento de vulnerabilidade, enquanto lidava com lutos e isolamento. “Eu nasci em Salvador, mas minha família toda é do interior. Meu pai corria vaquejada. Eu perdi meu pai, saí de um relacionamento, e aí o Forró Colorido veio justamente pra me acolher. Eu não consigo mais estar fora desse lugar”, conta, emocionada.

Assim como Karol, a gerente comercial Mariana Ramalho também se sentiu abraçada e acolhida nas aulas da professora Joice. “Para mim, uma mulher preta, lésbica, me sentir à vontade em algum espaço, é muito complicado. Aqui eu criei grandes amizades, então me sinto pertencente”. Aluna assídua desde janeiro, ela frequenta as aulas às terças e também aos sábados, para aprimorar ao máximo sua prática como condutora e conduzida na dança. “Você pode vir do jeito que você acha que você sabe dançar. Um dois pra lá, um dois pra cá, e você vai sentindo seu corpo, dançando, livre”, destaca.

Ao longo dos últimos meses, o Forró Colorido tem recebido convites para participar de festas e eventos em Salvador e Região Metropolitana e, no que depender de Joice, a expectativa é expandir e multiplicar sua metodologia de ensino da dança com cuidado, afeto e respeito. “A gente aqui se fortalece e cresce enquanto pessoa, enquanto grupo. Isso me faz perceber que o Forró Colorido tem um potencial muito grande”, conclui.