Há silêncios que decidem nações - Sobre a abstenção, a democracia e o peso de cada presença
Há silêncios que passam despercebidos, e há silêncios que decidem o futuro de uma nação.O silêncio que me preocupa nesta semana, a poucos dias de uma eleição que definirá o curso de Cabo Verde, não é o dos candidatos que escolheram não debater. Não é o silêncio das polémicas que se apaga tão depressa como surge. É o silêncio que as sondagens anunciam com perturbadora clareza, e que se concretiza no silêncio de centenas de milhares de cabo-verdianos que poderão optar por não votar. A confirmação da abstenção como personagem principal, e a ausência de um voto que ninguém contabiliza, mas que todos acabam por sentir.A abstenção não é neutraExiste uma ideia generalizada e perigosa de que não votar é uma forma de neutralidade. Uma espécie de recusa silenciosa em tomar partido. No entanto, isso é uma ilusão. A abstenção nunca é neutra; é sempre uma escolha e, como toda escolha, tem consequências.Quando um cidadão fica em casa no dia das eleições, não se retira da política. Retira-se da decisão e entrega-a a outro. A democracia não suspende o seu funcionamento porque uma parte dos eleitores decidiu não participar. A democracia avança sem eles. E avança moldada, em proporções maiores, por quem efetivamente se apresentou.Aristóteles, em A Política, definiu o ser humano como um zoon politikon (um animal político), cuja natureza mais profunda só se realiza plenamente na participação na vida coletiva. Para Aristóteles, quem vive deliberadamente fora da pólis, alheio à comunidade e ao debate comum, “ou é uma besta ou é um deus.” A nossa fragilidade humana e a nossa grandeza estão precisamente nesse espaço intermédio, onde somos seres de comunidade, de responsabilidade partilhada e de decisão coletiva.Há dois mil anos, os atenienses que não participavam na Ecclesia (a Assembleia do Povo) eram chamados de idiotes, não no sentido contemporâneo da palavra, mas no seu sentido original grego, que designava o indivíduo fechado nos seus assuntos privados e indiferente à vida da comunidade. O orgulho da democracia ateniense residia precisamente na negação desse individualismo. Péricles proclamava-o com clareza definida que a participação cívica não era uma opção, ela era a essência de ser cidadão.O caso específico de Cabo VerdeHá, porém, uma razão adicional que torna a abstenção particularmente preocupante no contexto cabo-verdiano. Uma razão técnica, mas com consequências profundamente políticas.O nosso sistema eleitoral, numas eleições legislativas, é organizado por círculos eleitorais, não existe um único escrutínio nacional, mas um conjunto de eleições em circunscrições distintas, com pesos e dinâmicas próprias. Neste modelo, a participação não é apenas uma questão de legitimidade global, é uma questão de representação local. Uma abstenção diferenciada, maior em determinados círculos, e menor noutros, pode produzir resultados que divergem significativamente da vontade agregada da população.Por outras palavras, não se trata apenas de quem ganha ou perde. Trata-se de saber se os eleitos são, efetivamente, o espelho fiel das aspirações do povo que dizem representar. Quando uma parte relevante dos eleitores decide ficar em casa, a composição final do parlamento pode refletir não o que os cabo-verdianos querem, mas apenas o que os cabo-verdianos que votaram querem. E esses podem ser, em certos círculos, uma minoria bastante específica e pouco representativa da diversidade do país.Quando muitos ficam em casa, outros acabam por decidir por todos. Não é apenas uma questão matemática. É uma questão de legitimidade democrática. Um parlamento forte não nasce apenas da vitória eleitoral, nasce da participação ampla do povo. Um governo forte não é apenas aquele que vence, é aquele que governa sabendo que foi escolhido com participação robusta dos seus cidadãos.A herança que nos foi entregueCabo Verde não chegou até aqui por acidente. Construímos, ao longo das últimas décadas, uma das democracias mais sólidas e admiradas de África. Num continente com uma história tantas vezes marcada por ruturas, golpes e autoritarismos, o nosso arquipélago afirmou-se como exceção de estabilidade, de alternância pacífica e de respeito pelas instituições. Esse capital não foi criado por decreto. Foi construído com escolhas difíceis, com sacrifícios e com a maturidade coletiva de um povo que compreendeu, desde cedo, que a liberdade política não é um bem eterno e garantido.Abraham Lincoln, no campo de batalha de Gettysburg, em 1863, definiu a democracia como “o governo do povo, pelo povo e para o povo.” A frase sobreviveu porque contém uma verdade simples e inegociável, onde a democracia não existe sem o povo. Não é uma estrutura que funciona por si só, independentemente de quem a habita e alimenta. É uma construção permanente, frágil e exigente.Winston Churchill, com a ironia que lhe era característica, recordava que “a democracia é a pior forma de governo, excepto todas as outras que já foram tentadas.” Dizia-o com consciência das suas imperfeições, mas d
Há silêncios que passam despercebidos, e há silêncios que decidem o futuro de uma nação.
O silêncio que me preocupa nesta semana, a poucos dias de uma eleição que definirá o curso de Cabo Verde, não é o dos candidatos que escolheram não debater. Não é o silêncio das polémicas que se apaga tão depressa como surge. É o silêncio que as sondagens anunciam com perturbadora clareza, e que se concretiza no silêncio de centenas de milhares de cabo-verdianos que poderão optar por não votar. A confirmação da abstenção como personagem principal, e a ausência de um voto que ninguém contabiliza, mas que todos acabam por sentir.
A abstenção não é neutra
Existe uma ideia generalizada e perigosa de que não votar é uma forma de neutralidade. Uma espécie de recusa silenciosa em tomar partido. No entanto, isso é uma ilusão. A abstenção nunca é neutra; é sempre uma escolha e, como toda escolha, tem consequências.
Quando um cidadão fica em casa no dia das eleições, não se retira da política. Retira-se da decisão e entrega-a a outro. A democracia não suspende o seu funcionamento porque uma parte dos eleitores decidiu não participar. A democracia avança sem eles. E avança moldada, em proporções maiores, por quem efetivamente se apresentou.
Aristóteles, em A Política, definiu o ser humano como um zoon politikon (um animal político), cuja natureza mais profunda só se realiza plenamente na participação na vida coletiva. Para Aristóteles, quem vive deliberadamente fora da pólis, alheio à comunidade e ao debate comum, “ou é uma besta ou é um deus.” A nossa fragilidade humana e a nossa grandeza estão precisamente nesse espaço intermédio, onde somos seres de comunidade, de responsabilidade partilhada e de decisão coletiva.
Há dois mil anos, os atenienses que não participavam na Ecclesia (a Assembleia do Povo) eram chamados de idiotes, não no sentido contemporâneo da palavra, mas no seu sentido original grego, que designava o indivíduo fechado nos seus assuntos privados e indiferente à vida da comunidade. O orgulho da democracia ateniense residia precisamente na negação desse individualismo. Péricles proclamava-o com clareza definida que a participação cívica não era uma opção, ela era a essência de ser cidadão.
O caso específico de Cabo Verde
Há, porém, uma razão adicional que torna a abstenção particularmente preocupante no contexto cabo-verdiano. Uma razão técnica, mas com consequências profundamente políticas.
O nosso sistema eleitoral, numas eleições legislativas, é organizado por círculos eleitorais, não existe um único escrutínio nacional, mas um conjunto de eleições em circunscrições distintas, com pesos e dinâmicas próprias. Neste modelo, a participação não é apenas uma questão de legitimidade global, é uma questão de representação local. Uma abstenção diferenciada, maior em determinados círculos, e menor noutros, pode produzir resultados que divergem significativamente da vontade agregada da população.
Por outras palavras, não se trata apenas de quem ganha ou perde. Trata-se de saber se os eleitos são, efetivamente, o espelho fiel das aspirações do povo que dizem representar. Quando uma parte relevante dos eleitores decide ficar em casa, a composição final do parlamento pode refletir não o que os cabo-verdianos querem, mas apenas o que os cabo-verdianos que votaram querem. E esses podem ser, em certos círculos, uma minoria bastante específica e pouco representativa da diversidade do país.
Quando muitos ficam em casa, outros acabam por decidir por todos. Não é apenas uma questão matemática. É uma questão de legitimidade democrática. Um parlamento forte não nasce apenas da vitória eleitoral, nasce da participação ampla do povo. Um governo forte não é apenas aquele que vence, é aquele que governa sabendo que foi escolhido com participação robusta dos seus cidadãos.
A herança que nos foi entregue
Cabo Verde não chegou até aqui por acidente. Construímos, ao longo das últimas décadas, uma das democracias mais sólidas e admiradas de África. Num continente com uma história tantas vezes marcada por ruturas, golpes e autoritarismos, o nosso arquipélago afirmou-se como exceção de estabilidade, de alternância pacífica e de respeito pelas instituições. Esse capital não foi criado por decreto. Foi construído com escolhas difíceis, com sacrifícios e com a maturidade coletiva de um povo que compreendeu, desde cedo, que a liberdade política não é um bem eterno e garantido.
Abraham Lincoln, no campo de batalha de Gettysburg, em 1863, definiu a democracia como “o governo do povo, pelo povo e para o povo.” A frase sobreviveu porque contém uma verdade simples e inegociável, onde a democracia não existe sem o povo. Não é uma estrutura que funciona por si só, independentemente de quem a habita e alimenta. É uma construção permanente, frágil e exigente.
Winston Churchill, com a ironia que lhe era característica, recordava que “a democracia é a pior forma de governo, excepto todas as outras que já foram tentadas.” Dizia-o com consciência das suas imperfeições, mas dizia-o também com a convicção de que essas imperfeições só se corrigem por dentro, com participação, com exigência e com presença, nunca com afastamento e desistência.
A História mostra-nos, com reiterada clareza, que as grandes transformações das sociedades nunca nasceram da apatia coletiva. Nasceram sempre da mobilização dos cidadãos, e os momentos de maior cansaço político foram, frequentemente, os momentos em que a participação era mais necessária, e, a sua ausência, mais custosa.
O chamado deste momento
Não escrevo hoje como um apelo partidário. Escrevo-o como quem observa, com genuína preocupação, o desgaste da confiança democrática. Como quem acredita que Cabo Verde tem construído algo de raro e valioso, e que essa construção merece ser protegida por quem a habita.
A mensagem é simples e, espero, acima de qualquer divisão política, que os nossos cidadãos participem. Participem mesmo que estejam desiludidos. Participem mesmo que nenhuma das opções vos entusiasme plenamente. Participem porque a abstenção não é uma mensagem que os eleitos costumam receber com preocupação, é uma ausência que, simplesmente, favorece sempre alguém, e raramente é aquele que teria sido escolhido por quem ficou em casa.
A democracia não se fortalece apenas no dia em que um povo escolhe bem os seus representantes. Fortalece-se no dia em que escolhe participar, mesmo quando as escolhas são difíceis, mesmo quando a desilusão é real, mesmo quando a distância entre eleitos e eleitores parece insuperável. É precisamente nesses momentos que a maturidade democrática se revela. E Cabo Verde tem mostrado, ao longo da sua história, que é um povo maduro.
Cabo Verde enfrenta desafios sérios, sejam económicos, sociais, ambientais ou geopolíticos. Vivemos num mundo cada vez mais instável, polarizado e imprevisível. As democracias em todo o mundo estão sob pressão. O crescimento do extremismo, da desinformação, do populismo e da descrença nas instituições tornou-se um fenómeno global. Num contexto como este, preservar a força da nossa democracia deve ser uma prioridade nacional.
E preservar a democracia começa exatamente aqui, no compromisso individual de cada cidadão com o voto. Não se trata apenas de escolher partidos ou candidatos. Trata-se de defender um princípio maior, onde a ideia de que o futuro do país deve continuar a ser decidido pelo povo, com o povo e através do povo.
Permitam-me repetir uma mensagem que considero crucial. Há silêncios que ficam para a história, e há outros que simplesmente decidem sem nós.
No próximo domingo, a escolha é nossa. As eleições passarão, os debates terminarão, os cartazes desaparecerão, mas a qualidade da nossa democracia continuará a depender da capacidade que tivermos de manter vivo o espírito de participação cívica. Uma democracia forte não é aquela em que todos pensam da mesma forma. É aquela em que todos escolhem participar.
Tenhamos a força coletiva para continuar a fazer da nossa democracia um pilar forte da nossa sociedade e para escolher participar e continuar a construir um sonho chamado Cabo Verde.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276 de 13 de Maio de 2026.