Infância/Abuso sexual: Entre o silêncio das vítimas e as marcas da violência, uma realidade que persiste para além da infância
Algumas crianças não encontram palavras para explicar o que lhes aconteceu. Outras crescem sem conseguir falar sobre quem lhes roubou a segurança. Em muitos casos, o silêncio instala-se precisamente onde deveria existir protecção: dentro de casa, entre familiares ou junto de pessoas em quem a criança deveria poder confiar.A dimensão desta realidade voltou a ganhar atenção pública com a Operação Aurora, que levou à detenção de 25 suspeitos de crimes relacionados com abuso e exploração sexual de menores.Segundo a Polícia Judiciária (PJ), 18 ficaram em prisão preventiva e os restantes sujeitos a outras medidas de coacção. Os suspeitos são investigados por crimes de prostituição de menores, lenocínio, abuso e agressão sexual de crianças, incluindo menores de 14 anos, por factos que terão ocorrido desde 2023, na ilha do Sal e em Safende, na cidade da Praia.Os testemunhos recolhidos pela Inforpress revelam histórias de violência e as marcas profundas deixadas na vida de quem a sofreu.Uma das mulheres ouvidas recorda que tinha apenas seis anos quando os abusos começaram. Enquanto a mãe trabalhava, ficava aos cuidados de familiares e foi nesse ambiente que um primo terá começado a agarrá-la, a levá-la para uma cama e a tocar-lhe no corpo, exigindo que guardasse segredo.A infância, que deveria ser um tempo de protecção, passou a ser marcada pelo medo e pela obrigação de esconder o que acontecia.A mudança para a casa do pai não significou o fim da violência. Mais tarde, afirmou ter sido novamente abusada pelo marido de uma tia, que a agarrava e tocava nas suas partes íntimas.Aos 12 anos, ouviu do homem, durante os abusos, que “tinha duas mulheres para me satisfazer”. Ao recordar a frase, interrompeu o relato em lágrimas. Os anos não apagaram a memória nem o peso de uma violência iniciada quando ainda era demasiado pequena para compreender o que lhe estava a acontecer.Noutro caso, a violência foi interrompida pela própria reacção de uma criança. Uma mãe contou que a filha, de 10 anos, regressou assustada de uma loja em frente à residência, depois de o comerciante ter feito comentários sobre o seu corpo e tentado tocar-lhe no peito.A menina conseguiu impedir o gesto e fugir. A mãe confrontou o homem e chamou a Polícia, mas considerou que a resposta das autoridades ficou aquém das suas expectativas.O caso mostra que o perigo nem sempre está longe ou escondido. Pode estar num espaço frequentado diariamente pela criança ou num ambiente que inspira confiança aos adultos responsáveis pela sua protecção.A história de Cristina Alves acrescenta outra dimensão às consequências da violência. Tinha apenas 11 meses quando a mãe terá descoberto, através de marcas no corpo e de exames médicos, que a filha tinha sido vítima de abuso sexual, alegadamente praticado pelo próprio pai.O homem foi condenado a 13 anos de prisão. Contudo, segundo Cristina Alves, depois de cumprir a pena, voltou a aparecer nos locais que frequentava, expondo-a novamente à sua presença e a comentários desagradáveis.“Não é fácil encará-lo, mas hoje já não sinto medo dele. Desejo que todas as pessoas que passaram por situações semelhantes encontrem força para quebrar o silêncio e coragem para procurar justiça”, afirmou.São experiências diferentes, mas atravessadas por uma mesma realidade: a violência não fica circunscrita ao momento em que acontece. Pode prolongar-se na memória, nas relações pessoais e na dificuldade em recuperar a sensação de segurança.O medo de não ser acreditada, a vergonha, a dependência familiar e a proximidade com os alegados agressores são alguns dos factores que dificultam a denúncia. Quando o agressor pertence à família ou é alguém conhecido, falar pode significar enfrentar não apenas a violência sofrida, mas também as consequências de a tornar pública.Os números oficiais ajudam a dimensionar o problema, embora não revelem todas as situações que permanecem ocultas.Em Cabo Verde, o Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente (ICCA) registou 184 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes em 2024. Em 2025, foram contabilizadas 164 e, no primeiro semestre de 2026, outras 70.Os dados foram apresentados pela presidente do ICCA, Denise Rezende, durante a sua participação num podcast.A redução dos registos não permite, por si só, concluir que os casos de abuso diminuíram. A dispersão geográfica das comunidades, a vergonha, o medo de denunciar e a proximidade entre vítimas e agressores podem contribuir para que muitas situações permaneçam fora das estatísticas oficiais.É também neste contexto que surgem iniciativas destinadas a facilitar a sinalização de situações de vulnerabilidade.A plataforma ChildSafe, criada por Suelma Paris, já recebeu denúncias, que foram encaminhadas ao ICCA, tendo a instituição respondido às comunicações.A ferramenta pretende “aproximar a população das entidades competentes, permitindo encaminhar denúncias e acompanhar o estado dos casos comunicados”.Entre os principais desafios, Suelma Paris a
Algumas crianças não encontram palavras para explicar o que lhes aconteceu. Outras crescem sem conseguir falar sobre quem lhes roubou a segurança. Em muitos casos, o silêncio instala-se precisamente onde deveria existir protecção: dentro de casa, entre familiares ou junto de pessoas em quem a criança deveria poder confiar.
A dimensão desta realidade voltou a ganhar atenção pública com a Operação Aurora, que levou à detenção de 25 suspeitos de crimes relacionados com abuso e exploração sexual de menores.
Segundo a Polícia Judiciária (PJ), 18 ficaram em prisão preventiva e os restantes sujeitos a outras medidas de coacção. Os suspeitos são investigados por crimes de prostituição de menores, lenocínio, abuso e agressão sexual de crianças, incluindo menores de 14 anos, por factos que terão ocorrido desde 2023, na ilha do Sal e em Safende, na cidade da Praia.
Os testemunhos recolhidos pela Inforpress revelam histórias de violência e as marcas profundas deixadas na vida de quem a sofreu.
Uma das mulheres ouvidas recorda que tinha apenas seis anos quando os abusos começaram. Enquanto a mãe trabalhava, ficava aos cuidados de familiares e foi nesse ambiente que um primo terá começado a agarrá-la, a levá-la para uma cama e a tocar-lhe no corpo, exigindo que guardasse segredo.
A infância, que deveria ser um tempo de protecção, passou a ser marcada pelo medo e pela obrigação de esconder o que acontecia.
A mudança para a casa do pai não significou o fim da violência. Mais tarde, afirmou ter sido novamente abusada pelo marido de uma tia, que a agarrava e tocava nas suas partes íntimas.
Aos 12 anos, ouviu do homem, durante os abusos, que “tinha duas mulheres para me satisfazer”. Ao recordar a frase, interrompeu o relato em lágrimas. Os anos não apagaram a memória nem o peso de uma violência iniciada quando ainda era demasiado pequena para compreender o que lhe estava a acontecer.
Noutro caso, a violência foi interrompida pela própria reacção de uma criança. Uma mãe contou que a filha, de 10 anos, regressou assustada de uma loja em frente à residência, depois de o comerciante ter feito comentários sobre o seu corpo e tentado tocar-lhe no peito.
A menina conseguiu impedir o gesto e fugir. A mãe confrontou o homem e chamou a Polícia, mas considerou que a resposta das autoridades ficou aquém das suas expectativas.
O caso mostra que o perigo nem sempre está longe ou escondido. Pode estar num espaço frequentado diariamente pela criança ou num ambiente que inspira confiança aos adultos responsáveis pela sua protecção.
A história de Cristina Alves acrescenta outra dimensão às consequências da violência. Tinha apenas 11 meses quando a mãe terá descoberto, através de marcas no corpo e de exames médicos, que a filha tinha sido vítima de abuso sexual, alegadamente praticado pelo próprio pai.
O homem foi condenado a 13 anos de prisão. Contudo, segundo Cristina Alves, depois de cumprir a pena, voltou a aparecer nos locais que frequentava, expondo-a novamente à sua presença e a comentários desagradáveis.
“Não é fácil encará-lo, mas hoje já não sinto medo dele. Desejo que todas as pessoas que passaram por situações semelhantes encontrem força para quebrar o silêncio e coragem para procurar justiça”, afirmou.
São experiências diferentes, mas atravessadas por uma mesma realidade: a violência não fica circunscrita ao momento em que acontece. Pode prolongar-se na memória, nas relações pessoais e na dificuldade em recuperar a sensação de segurança.
O medo de não ser acreditada, a vergonha, a dependência familiar e a proximidade com os alegados agressores são alguns dos factores que dificultam a denúncia. Quando o agressor pertence à família ou é alguém conhecido, falar pode significar enfrentar não apenas a violência sofrida, mas também as consequências de a tornar pública.
Os números oficiais ajudam a dimensionar o problema, embora não revelem todas as situações que permanecem ocultas.
Em Cabo Verde, o Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente (ICCA) registou 184 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes em 2024. Em 2025, foram contabilizadas 164 e, no primeiro semestre de 2026, outras 70.
Os dados foram apresentados pela presidente do ICCA, Denise Rezende, durante a sua participação num podcast.
A redução dos registos não permite, por si só, concluir que os casos de abuso diminuíram. A dispersão geográfica das comunidades, a vergonha, o medo de denunciar e a proximidade entre vítimas e agressores podem contribuir para que muitas situações permaneçam fora das estatísticas oficiais.
É também neste contexto que surgem iniciativas destinadas a facilitar a sinalização de situações de vulnerabilidade.
A plataforma ChildSafe, criada por Suelma Paris, já recebeu denúncias, que foram encaminhadas ao ICCA, tendo a instituição respondido às comunicações.
A ferramenta pretende “aproximar a população das entidades competentes, permitindo encaminhar denúncias e acompanhar o estado dos casos comunicados”.
Entre os principais desafios, Suelma Paris apontou a dificuldade em acompanhar o desfecho das denúncias e distinguir situações de perigo efectivo de conteúdos que não justificam uma intervenção.
Entre os testemunhos, as denúncias e os números oficiais, permanece uma realidade que os registos institucionais não conseguem revelar na totalidade. Há histórias que só chegam a ser conhecidas anos depois, quando as vítimas encontram condições para falar. Outras continuam por contar.
A infância perdida não pode ser devolvida. Mas quebrar o silêncio, reconhecer a violência e assegurar que cada criança seja ouvida e protegida pode impedir que outras cresçam com as mesmas marcas.