Mizé Sanches transforma fibra de sisal em arte

O percurso de Mizé Sanches no artesanato começou de forma espontânea, após tentar recriar colares que havia recebido de uma prima, dando início a uma actividade que rapidamente despertou o interesse de colegas e amigos.“A primeira peça que produzi surgiu porque a minha prima veio da Suécia e trouxe-me colares chokers, que, na altura, estavam na moda. Com o tempo, esses colares estragaram-se, então fui a uma loja no Plateau, que vende materiais para produção artesanal, comprei o necessário e fiz as minhas primeiras peças. Naquela altura, estava no primeiro ano da licenciatura e comecei a produzir peças para uso próprio.”Com o tempo, os colegas começaram a mostrar interesse e perguntavam onde tinha comprado os colares. Mizé explicou que era ela própria quem os produzia.A partir daí, os colegas começaram a fazer encomendas. “Comecei a produzir e a vender tudo. Foi assim que comecei, numa brincadeira. Mas, com o tempo, percebi que não basta apenas criar; é preciso saber gerir o dinheiro, vender, lidar com clientes e uma série de outras competências que fui aprendendo ao longo do percurso.”A artesã conta que aquilo que começou como uma brincadeira acabou por se transformar num negócio. Por isso, investiu em formações que a ajudaram a estruturar melhor a sua actividade.“Com o passar do tempo, participei em vários tipos de formação para capacitar a minha mente, não só sobre como produzir as peças, mas também sobre como gerir a minha própria empresa”, explica.Fibra de sisalEm 2018, produziu a sua primeira bolsa com fibra de sisal, inicialmente apenas para uso pessoal. Com o tempo, as pessoas viam-na a utilizar aquele material e perguntavam onde poderiam adquirir uma peça semelhante.Na altura, ainda não possuía experiência nem domínio técnico, pois a bolsa foi criada de forma intuitiva, sem bases estruturadas que sustentassem uma produção continuada.Só em 2020, durante a pandemia da COVID-19, sentiu necessidade de criar algo diferente.“Na altura, a minha produção de bolsas era feita com tecido africano, como acontecia com a maioria dos artesãos em Cabo Verde. Tendo em conta que já tinha produzido uma primeira bolsa em 2018, pensei em desenvolver melhor essa ideia. Como estávamos em plena pandemia e eu não tinha acesso ao ateliê no Palácio da Cultura Ildo Lobo, que permaneceu fechado durante três meses, decidi investir no desenvolvimento da produção de bolsas com sisal.”Inicialmente, os trabalhos com sisal não tinham nome; eram fruto de curiosidade e experimentação.“Tive um mentor que considero um mestre, um senegalês chamado Daniel. Ele trabalha na criação de bolsas e também com batique. Durante três meses, abdicou do seu tempo para me ensinar a cortar moldes e a criar peças.”Mizé sublinha que o mentor lhe ensinou as bases da produção de bolsas, embora ele próprio não trabalhasse com fibra de sisal.“Ele disse-me que bastava dominar a base; depois, poderia aperfeiçoar ao longo do tempo. Fiquei seis meses focada em testar como produzir bolsas com fibra de sisal, para garantir que, mesmo após dois ou três anos de uso, mantivessem a qualidade inicial”, relata.A artesã realça que, quando alcançou o resultado pretendido, decidiu apostar definitivamente nesta técnica.“Foi assim que nasceu a colecção ‘Siza Karapati’, marcando uma nova fase na minha carreira.”Inicialmente, utilizava sisal importado, mas um incentivo do então Ministro da Cultura levou-a a procurar matéria-prima nacional.“Essa decisão revelou-se desafiante, sobretudo devido à escassez de produtores e à desvalorização histórica do trabalho ligado ao sisal.”Actualmente, Mizé trabalha com fornecedoras locais, com o objectivo de contribuir para a valorização de uma prática tradicional.“A minha ideia é trabalhar com o nosso sisal e também resgatar uma actividade que, em tempos, foi fonte de rendimento para comunidades como Fonte Lima, no interior de Santiago.”A artesã revela que as suas criações têm sido muito bem recebidas pelo público, sobretudo pela sua originalidade.“Muitas pessoas ficam surpreendidas ao descobrir que as bolsas são feitas de fibra de sisal, e ainda mais por ser um material nosso.”ExposiçãoMizé Sanches destaca que, desde 2020, tem participado em diversas exposições, tanto nacionais como internacionais.Entre as participações internacionais, sublinha a presença na Índia, no Festival Internacional da Moda Africana, em Marrocos, e apresentações em Portugal.Em Maio deste ano, participará na CPLP Fashion Week, em Portugal. Posteriormente, levará as suas peças a uma exposição no Luxemburgo, integrada num evento anual organizado pela comunidade de São Vicente residente naquele país, no mês de Julho.A nível nacional, refere já ter participado em várias exposições promovidas pelo Governo, entidades privadas e câmaras municipais.A artesã confessa que o seu trabalho tem conquistado sobretudo cabo-verdianos na diáspora. Apesar de reconhecer que o mercado nacional ainda apresenta limitações em termos de poder de compra, defende o justo valor das peças artesan

Mizé Sanches transforma fibra de sisal em arte

O percurso de Mizé Sanches no artesanato começou de forma espontânea, após tentar recriar colares que havia recebido de uma prima, dando início a uma actividade que rapidamente despertou o interesse de colegas e amigos.

“A primeira peça que produzi surgiu porque a minha prima veio da Suécia e trouxe-me colares chokers, que, na altura, estavam na moda. Com o tempo, esses colares estragaram-se, então fui a uma loja no Plateau, que vende materiais para produção artesanal, comprei o necessário e fiz as minhas primeiras peças. Naquela altura, estava no primeiro ano da licenciatura e comecei a produzir peças para uso próprio.”

Com o tempo, os colegas começaram a mostrar interesse e perguntavam onde tinha comprado os colares. Mizé explicou que era ela própria quem os produzia.

A partir daí, os colegas começaram a fazer encomendas. “Comecei a produzir e a vender tudo. Foi assim que comecei, numa brincadeira. Mas, com o tempo, percebi que não basta apenas criar; é preciso saber gerir o dinheiro, vender, lidar com clientes e uma série de outras competências que fui aprendendo ao longo do percurso.”

A artesã conta que aquilo que começou como uma brincadeira acabou por se transformar num negócio. Por isso, investiu em formações que a ajudaram a estruturar melhor a sua actividade.

“Com o passar do tempo, participei em vários tipos de formação para capacitar a minha mente, não só sobre como produzir as peças, mas também sobre como gerir a minha própria empresa”, explica.

Fibra de sisal

Em 2018, produziu a sua primeira bolsa com fibra de sisal, inicialmente apenas para uso pessoal. Com o tempo, as pessoas viam-na a utilizar aquele material e perguntavam onde poderiam adquirir uma peça semelhante.

Na altura, ainda não possuía experiência nem domínio técnico, pois a bolsa foi criada de forma intuitiva, sem bases estruturadas que sustentassem uma produção continuada.

Só em 2020, durante a pandemia da COVID-19, sentiu necessidade de criar algo diferente.

“Na altura, a minha produção de bolsas era feita com tecido africano, como acontecia com a maioria dos artesãos em Cabo Verde. Tendo em conta que já tinha produzido uma primeira bolsa em 2018, pensei em desenvolver melhor essa ideia. Como estávamos em plena pandemia e eu não tinha acesso ao ateliê no Palácio da Cultura Ildo Lobo, que permaneceu fechado durante três meses, decidi investir no desenvolvimento da produção de bolsas com sisal.”

Inicialmente, os trabalhos com sisal não tinham nome; eram fruto de curiosidade e experimentação.

“Tive um mentor que considero um mestre, um senegalês chamado Daniel. Ele trabalha na criação de bolsas e também com batique. Durante três meses, abdicou do seu tempo para me ensinar a cortar moldes e a criar peças.”

Mizé sublinha que o mentor lhe ensinou as bases da produção de bolsas, embora ele próprio não trabalhasse com fibra de sisal.

“Ele disse-me que bastava dominar a base; depois, poderia aperfeiçoar ao longo do tempo. Fiquei seis meses focada em testar como produzir bolsas com fibra de sisal, para garantir que, mesmo após dois ou três anos de uso, mantivessem a qualidade inicial”, relata.

A artesã realça que, quando alcançou o resultado pretendido, decidiu apostar definitivamente nesta técnica.

“Foi assim que nasceu a colecção ‘Siza Karapati’, marcando uma nova fase na minha carreira.”

Inicialmente, utilizava sisal importado, mas um incentivo do então Ministro da Cultura levou-a a procurar matéria-prima nacional.

“Essa decisão revelou-se desafiante, sobretudo devido à escassez de produtores e à desvalorização histórica do trabalho ligado ao sisal.”

Actualmente, Mizé trabalha com fornecedoras locais, com o objectivo de contribuir para a valorização de uma prática tradicional.

“A minha ideia é trabalhar com o nosso sisal e também resgatar uma actividade que, em tempos, foi fonte de rendimento para comunidades como Fonte Lima, no interior de Santiago.”

A artesã revela que as suas criações têm sido muito bem recebidas pelo público, sobretudo pela sua originalidade.

“Muitas pessoas ficam surpreendidas ao descobrir que as bolsas são feitas de fibra de sisal, e ainda mais por ser um material nosso.”

Exposição

Mizé Sanches destaca que, desde 2020, tem participado em diversas exposições, tanto nacionais como internacionais.

Entre as participações internacionais, sublinha a presença na Índia, no Festival Internacional da Moda Africana, em Marrocos, e apresentações em Portugal.

Em Maio deste ano, participará na CPLP Fashion Week, em Portugal. Posteriormente, levará as suas peças a uma exposição no Luxemburgo, integrada num evento anual organizado pela comunidade de São Vicente residente naquele país, no mês de Julho.

A nível nacional, refere já ter participado em várias exposições promovidas pelo Governo, entidades privadas e câmaras municipais.

A artesã confessa que o seu trabalho tem conquistado sobretudo cabo-verdianos na diáspora. Apesar de reconhecer que o mercado nacional ainda apresenta limitações em termos de poder de compra, defende o justo valor das peças artesanais.

“Uma peça de arte tem o seu valor, porque envolve tempo, técnica e identidade.”

Actualmente, Mizé dispõe de um ateliê no Plateau, onde trabalha com uma equipa de três pessoas.

Para o futuro, ambiciona expandir a utilização da fibra de sisal para outras áreas, explorando o potencial deste material em diferentes segmentos, desde a decoração ao vestuário.

“Quero consolidar a marca e levar o sisal cabo-verdiano ainda mais longe.”

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1275 de 06 de Maio de 2026.