“Não era nem pra ter saído viva”
A frase acima é da mãe, empresária e cristã, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, após ter torturado barbaramente a trabalhadora doméstica, Samara Regina, de 19 anos (grávida de cinco meses), durante mais de uma hora, em São Luiz do Maranhão. Pasmem: essa afirmação da torturadora – “Não era nem pra ter saído viva” – foi […] O conteúdo “Não era nem pra ter saído viva” aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
A frase acima é da mãe, empresária e cristã, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, após ter torturado barbaramente a trabalhadora doméstica, Samara Regina, de 19 anos (grávida de cinco meses), durante mais de uma hora, em São Luiz do Maranhão.
Pasmem: essa afirmação da torturadora – “Não era nem pra ter saído viva” – foi dita, não apenas para suas amigas, vangloriando-se do feito, mas, para um policial militar maranhense que havia sido designado para apurar a denúncia de tortura contra a trabalhadora.
Em vez de conduzi-la para a delegacia e lavrar o flagrante delito, conforme determina a lei, até porque tortura é considerado crime hediondo e inafiançável no Brasil, o policial militar gargalhou sobre o episódio e aindaorientou a torturadora de como negar o crime cometido, caso fosse indagada.
Para completar o cenário de terror do qual a trabalhadora doméstica Samara foi vítima, um outro policial militar, Michael Bruno Lopes Santos, não só ajudou a empresária nas torturas, como fez uso de arma de fogo, enfiando-a na boca da vítima, conforme relato da própria torturadora.
Detalhe importante desse episódio: a empregada doméstica é negra e pobre e a empresária é branca e rica.
Esta cena, é o retrato mais bem acabado que podíamos ter do período escravocrata que imaginávamos já ter sido superado no país. É a expressão mais violenta dos resquícios da escravidão, assim como da aliança histórica entre o aparato de segurança do Estado brasileiro e o empresariado.
É a expressão do pensamento e prática da extrema direita brasileira.
Mais grave ainda, esse episódio revela o quão ainda está arraigado na sociedade brasileira, em particular no Nordeste, o uso da violência extrema na relação entre patrões e empregados. A naturalidade da conivência policial, assim como das amigas da empresária para com o crime de tortura é impressionante.
O que ficou escancarado nessa brutalidade contra essa jovem negra, não foi apenas a tortura física, grave por si só, nem muito menos, a humilhação pela qual passou. Mas o entendimento, tanto da empresária quanto dos policiais militares de que a vítima não era um ser humano, era tão somente um semovente, uma mercadoria.
É a desumanização dos corpos negros em estado puro, sem retoques. É o escravismo redivivo.
Nenhum sentimento de humanidade, nenhuma cidadania. Não importava se ela era inocente, se havia provas da acusação ou se estava grávida. A única coisa que importava para os envolvidos era liberar, apoiar e acobertar o instinto bestial da criminosa.
Afinal, o patrão ou a patroa sempre tem razão. Assim pensa e age parte da elite brasileira, assim pensa e age a extrema direita brasileira, assim pensa e age os racistas brasileiros.
E esse sentimento está expresso nos relatos gravados e acompanhado de gargalhadas feito pela própria torturadoraa um grupo de amigas:
“Dei tanto nessa mulher, eu dei tanto, que até hoje minha mão tá aqui inchada. Quase uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos”.
Não fosse o caso ter vindo a público, via relato da própria criminosa, de forma arrogante e detalhada, por conta da certeza da impunidade, a versão que teria sido acolhida pela polícia seria a de que a empregada doméstica era uma ladra.
Portanto, precisamos muito mais do que indignação nesse episódio, mas entender e responder nas urnas de que não queremos representantes da escravidão contemporânea nos governando.
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