Violência psicológica no trabalho: o que não é dito, e o que eu aprendi a reconhecer ainda na infância

Eu nunca falei abertamente sobre isso. Durante muito tempo, evitei tocar nesse tema por respeito à minha história e às pessoas que fazem parte dela. Existem experiências que, mesmo silenciadas, nos atravessam de forma tão profunda que acabam moldando a maneira como percebemos o mundo, especialmente quando falamos de violência. Fui uma criança que presenciou […] O conteúdo Violência psicológica no trabalho: o que não é dito, e o que eu aprendi a reconhecer ainda na infância aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Violência psicológica no trabalho: o que não é dito, e o que eu aprendi a reconhecer ainda na infância

Eu nunca falei abertamente sobre isso. Durante muito tempo, evitei tocar nesse tema por respeito à minha história e às pessoas que fazem parte dela. Existem experiências que, mesmo silenciadas, nos atravessam de forma tão profunda que acabam moldando a maneira como percebemos o mundo, especialmente quando falamos de violência.

Fui uma criança que presenciou violência doméstica. Cresci observando dinâmicas que, naquela época, não tinham nome, não tinham denúncia e, sobretudo, não tinham proteção. Era um tempo em que mulheres tinham poucos ou nenhum recurso institucional de defesa. Um tempo anterior à Lei Maria da Penha, em que a violência contra a mulher era não apenas naturalizada, mas muitas vezes legitimada. A lógica era perversa e socialmente aceita: afinal, era a mulher quem “provocava”, quem “irritava”, quem, de alguma forma, justificava a agressão que sofria. Depois da separação dos meus pais, outras formas de violência continuaram presentes. Elas eram tão graves e ao mesmo tempo sutis, que eram difíceis de nomear. Eu via isso acontecer com a minha mãe e, inevitavelmente, isso também me atravessava. Hoje, à luz do conhecimento técnico, sei que muitas dessas dinâmicas configuram o que especialistas denominam alienação parental (um conjunto de estratégias, conscientes ou não, que interferem na formação psicológica da criança, desqualificando ou fragilizando o vínculo com um dos genitores). Mas, naquela época, eu não tinha esse repertório. Eu tinha apenas a experiência.

E talvez tenha sido ali, ainda criança, que comecei a desenvolver uma habilidade que me acompanha até hoje: a capacidade de identificar aquilo que não é dito, mas é vivido. Aquilo que não aparece de forma explícita, mas estrutura as relações. Essa experiência não ficou no passado. Ela atravessou minha formação, minhas escolhas e, inevitavelmente, a forma como leio o mundo profissional. Porque o que acontece dentro de casa não é um fenômeno isolado. É expressão de uma lógica maior, estrutural, que não desaparece, apenas se reorganiza.

No ambiente corporativo, essa mesma lógica se manifesta de maneira mais sofisticada e sutil, e por isso muitas vezes mais difícil de contestar. O princípio, no entanto, permanece o mesmo: deslegitimar, controlar, reduzir. Hoje, quando observo o cotidiano profissional, reconheço padrões que vão muito além de comportamentos isolados. A exclusão sutil de espaços de decisão, a desqualificação recorrente, muitas vezes travestida de “feedback”. E a invalidação de percepções legítimas não são acidentais. São práticas que, repetidas ao longo do tempo, produzem desgaste, insegurança e, sobretudo, um deslocamento interno profundo: a mulher passa a duvidar de si mesma, a se perguntar se está exagerando, se entendeu errado, se deveria ter reagido de outra forma.

Esse mecanismo tem nome. O que hoje reconhecemos como gaslighting corporativo, a invalidação sistemática da experiência do outro, não nasceu no ambiente de trabalho. Ele já operava, historicamente, dentro das relações íntimas, e continua operando agora sob a legitimidade de estruturas organizacionais que muitas vezes o confundem com cultura, estilo de gestão ou exigência de performance. Há ainda um outro elemento menos visível, mas igualmente estruturante: a sobrecarga emocional. Mulheres são constantemente convocadas, de forma implícita, a exercer funções de cuidado dentro das organizações: mediar conflitos, acolher colegas, sustentar o clima emocional das equipes. Tudo isso sem reconhecimento formal, sem nomeação e, na maioria das vezes, sem retorno proporcional. Essa carga não aparece nos indicadores, mas impacta diretamente trajetórias, decisões e possibilidades de crescimento.

O mais complexo é que grande parte dessas dinâmicas não é percebida como violência. Elas são interpretadas como “o jeito da empresa”, como “perfil de liderança” ou como “cultura organizacional”. E é exatamente essa naturalização que permite sua continuidade. Por isso, a ruptura começa pela nomeação. Quando nomeamos, deixamos de internalizar. Quando identificamos, deixamos de duvidar. Quando compreendemos, começamos a transformar.

Falar sobre violência psicológica no trabalho não é sobre fragilidade. É sobre lucidez. E, para mim, também é sobre trajetória, sobre transformar uma história que começou no silêncio em consciência crítica e, sobretudo, em posicionamento. Porque há algo que se aprende, cedo ou tarde: o que começa dentro de casa, não termina ali. Molda o mundo que também vivemos aqui fora. Que os homens de hoje sejam mais respeitosos, éticos e morais que os meninos de ontem forem ensinados.

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