Chuvas em Pernambuco expõem repetição de tragédias e abandono em territórios periféricos
Com mortes, desabrigados e cidades em emergência, cenário reacende denúncias sobre racismo ambiental e falta de políticas de prevenção
Catiane Pereira*
As fortes chuvas que atingem Pernambuco desde o início de maio de 2026 provocaram mortes, deixaram famílias desabrigadas e colocaram dezenas de municípios em situação de emergência. Em 2022, o estado também foi afetado com fortes chuvas com 133 mortos e milhares de pessoas desalojadas. Quatro anos após esse desastre, ao todo, seis pessoas morreram no Grande Recife, cinco vítimas de deslizamentos de barreiras e uma por afogamento. Mais uma vez, as tragédias atingem com maior intensidade as periferias urbanas.
O governo do estado decretou situação de emergência em 27 cidades por um período de 180 dias. Segundo a Defesa Civil, mais de 1.600 pessoas estão desabrigadas e outras mil foram desalojadas após perderem suas casas ou serem forçadas a deixá-las por risco de desabamento e alagamentos.
Entre os casos registrados, estão mortes de famílias inteiras em áreas de morro. Em Olinda, uma jovem de 20 anos e seu bebê de seis meses morreram após um deslizamento. No Recife, uma barreira caiu sobre uma casa e matou uma mulher e seu filho de 7 anos. Em São Lourenço da Mata, um homem morreu após ser arrastado pela correnteza.
A repetição dessas tragédias, no entanto, não surpreende quem vive nos territórios mais afetados.
A vida sob ameaça constante
Na zona oeste do Recife, no bairro da Várzea, a cientista social Joice Poliana da Paixão acompanha de perto os impactos das chuvas na rotina das famílias atendidas pela Associação Gris Espaço Solidário, que é um espaço de apoio lúdico e psicopedagógico para crianças.
Segundo ela, o alcance da destruição é amplo. “Na comunidade de Vila Raiz foram atingidas 479 edificações. Na B13, 125. E na Beira Rio, aproximadamente 530 habitações”, relata.
O impacto imediato recai sobre o deslocamento forçado das famílias e a interrupção de serviços básicos. “Muitas ficaram desalojadas, desabrigadas, algumas em casa de parentes, outras em casa de amigos. Uma escola municipal virou abrigo, interrompendo as aulas das crianças”, explica.
Além das perdas materiais, o medo constante marca o cotidiano. “O rio sobe muito rápido. Por mais que existam protocolos, na hora é um momento muito desesperador. A gente está com mulheres vivendo um processo de estresse pós-traumático e agora revivendo essa violência. E as crianças estão aterrorizadas”, diz.
Infância em risco
Os impactos das chuvas vão além da emergência e atingem diretamente o desenvolvimento infantil. Joice aponta que eventos extremos têm provocado o que especialistas chamam de ansiedade climática.
“As crianças ficam mais ansiosas, mais introspectivas. Algumas entram em um processo de depressão. Muitas têm acordado de madrugada com pesadelos, gritando. Uma mãe me mandou mensagem dizendo que a filha, de 6 anos, teve uma crise de ansiedade só com a previsão de chuva. Começou a chorar, gritar. É um efeito devastado”, relata.
Ela destaca que a quebra de rotina agrava ainda mais o cenário, especialmente para crianças neurodivergentes. “Para crianças no espectro autista, por exemplo, essa mudança brusca tem um efeito muito intenso, porque elas não conseguem processar a complexidade do que está acontecendo.”
Desigualdade que se repete
Assim como em anos anteriores, os impactos das chuvas se concentram em áreas historicamente negligenciadas. “As pessoas que estão nessas comunidades são majoritariamente negras. São mulheres, mães solo, chefes de família. Quando a gente olha quem morre, quem perde tudo, são essas pessoas”, afirma Joice.
Ela aponta que a crise climática escancara uma cadeia de violações de direitos. “A gente está falando de racismo ambiental, mas também de racismo institucional. A demora no socorro, a falta de estrutura na saúde, a ausência de drenagem, limpeza de canais… tudo isso faz parte de uma violação cotidiana.”
Memória e permanência
As cenas registradas neste ano ecoam o que já havia sido denunciado após as chuvas de 2022, que deixaram mais de 100 mortos em Pernambuco. Em 2023, moradores e ativistas já alertavam para a falta de investimento em obras estruturais e políticas de prevenção.
Três anos depois, com novas mortes e milhares de pessoas afetadas, a percepção nos territórios é de que pouco mudou. Diante da recorrência das tragédias, são as próprias comunidades que seguem garantindo respostas imediatas.
“As iniciativas comunitárias é que têm segurado os territórios. Coletivos, movimentos e associações fazem esse primeiro socorro, muitas vezes quando o Estado não chega ou chega de forma tardia”, afirma Joice.
Ela reconhece que houve algum apoio institucional, mas ainda insuficiente. “A gente teve acompanhamento da Secretaria das Periferias, o que fez diferença em alguns momentos. Mas isso ainda precisa ser muito mais fortalecido.”
Caminhos possíveis
Para quem vive e atua nos territórios, enfrentar os impactos das chuvas exige mudanças estruturais e contínuas, que vão além de ações emergenciais. Enquanto isso não acontece, a população segue convivendo com um ciclo já conhecido: chuva, perda, reconstrução — e, novamente, risco.
Em meio ao agravamento da crise climática, a repetição dessas tragédias levanta uma pergunta que insiste em permanecer sem resposta: até quando eventos previsíveis continuarão produzindo os mesmos impactos, e atingindo, sobretudo, os mesmos territórios e corpos?
*Com informações de G1