Caso Mãe Bernadete: Ato público marca início do júri popular em Salvador (BA)

A líder quilombola foi morta com 25 tiros enquanto assistia à televisão com seus netos; Julgamento acontece quase três anos após o crime.

Caso Mãe Bernadete: Ato público marca início do júri popular em Salvador (BA)

Por Jamile Novaes

Ativistas de movimentos sociais, organizações quilombolas, movimento negro e de mulheres negras se reuniram em frente ao Fórum Ruy Barbosa, em Salvador (BA), na manhã desta segunda-feira (13), para um ato público por justiça para Mãe Bernadete Pacífico. A manifestação marcou o início do julgamento dos réus pelo assassinato da liderança quilombola morta em 2023, dentro da associação do Quilombo Pitanga dos Palmares, localizado no município de Simões Filho (BA). 

O julgamento havia sido marcado para o dia 24 de fevereiro deste ano, porém a defesa solicitou a troca de advogados e conseguiu que houvesse um adiamento.

Com faixas, cartazes e gritos por justiça, os movimentos presentes no ato público pontuaram as negligências sistêmicas perpetuadas pelo Estado em relação às violações de direitos cometidas contra territórios e lideranças quilombolas em todo o país.

“A presença dos movimentos aqui hoje é uma forma de dizer que não vamos silenciar. Além do julgamento dos executores e mandantes do assassinato, também temos uma expectativa política, porque o que se decide lá dentro também abre precedentes para julgamentos de outros casos de assassinato dentro dos quilombos, que têm relação com a defesa das lideranças dentro dos territórios”, afirmou Amanda Oliveira, ativista do Odara – Instituto da Mulher Negra, uma das organizações responsáveis pela mobilização do ato.

Imagem: Lissandra Pedreira

Mãe Bernadete foi assassinada na noite de 17 de agosto de 2023, surpreendida enquanto assistia televisão acompanhada de seus netos. Ela foi atingida por 25 tiros, a maioria deles no rosto. Desde 2019, ela estava inscrita no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), após sofrer ameaças por denunciar riscos relacionados à sua atuação e à luta por justiça pelo assassinato de seu filho.

A diretora da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, avalia que a mobilização em torno do caso de Mãe Bernadete reforça o apelo da sociedade civil pelo fim da impunidade. Para ela, esse interesse público também chama atenção para a necessidade de fazer justiça por tantas mulheres negras ativistas que, há séculos, têm estado desprotegidas enquanto atuam na linha de frente da luta por direitos humanos.

“Esse júri não termina aqui, porque é preciso encontrar, processar e responsabilizar quem mandou matar. [É preciso] explicar para a sociedade por que se matou uma pessoa tão importante como a Mãe Bernadete e também apresentar reparações para a família e para o quilombo e garantir a não repetição”, ressaltou.

Familiares de Mãe Bernadete e moradores do Quilombo Pitanga dos Palmares também participaram da manifestação. “São quase três anos esperando que todos os envolvidos no assassinato de Mãe Bernadete sejam condenados de forma justa. Pedimos justiça por ela e também por Binho do Quilombo”, afirmou Jurandir Pacífico, filho de Mãe Bernadete.

Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, também era filho de Mãe Bernadete e foi assassinado a tiros em setembro de 2017, aos 36 anos, nas proximidades da comunidade. O crime também estava relacionado à disputa territorial. O inquérito que apurava as circunstâncias de sua morte foi arquivado no dia 24 de fevereiro, mesma data em que o júri popular do assassinato de Mãe Bernadete foi adiado.