Mudando de Pele: Quando a dor e a dúvida se tornam passagem
Mudando de pele já entrega tudo no título. Não é sobre trocar de roupa, é sobre arrancar a casca que o mundo lhe colocou. Taís Araújo protagoniza o monólogo dirigido por Yara de Novaes, com Ivy Souza como diretora assistente, e transforma o palco num encontro “solo coletivo”, “solo” porque é só a atriz desnuda […] O conteúdo Mudando de Pele: Quando a dor e a dúvida se tornam passagem aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
Mudando de pele já entrega tudo no título. Não é sobre trocar de roupa, é sobre arrancar a casca que o mundo lhe colocou. Taís Araújo protagoniza o monólogo dirigido por Yara de Novaes, com Ivy Souza como diretora assistente, e transforma o palco num encontro “solo coletivo”, “solo” porque é só a atriz desnuda de qualquer máscara e coletivo porque isso se faz diante de uma platéia extasiada.
Esse tornar-se fica evidente nos primeiros minutos da encenação pois, se quem vai ao espetáculo como foi o meu caso, ainda com a memória do monólogo o “Alto da Montanha”, apresentado anos atrás se surpreende, o trabalho agora não tem comparação é uma Tais diferente, oferecendo um outro tipo de entrega, muito mais profunda e visceral, ultrapassando a barreira de cor, raça ou gênero para falar da troca de pele humana sem perder essas essências que nos tornam seres da mesma espécie porém, diferentes.
A travessia se faz quando a personagem rompe com o emprego que a sufocava e a ruptura contínua se dando nos próximos encontros. Mildred, senhora de 90 anos, jamaicana, veterana dos direitos por igualdade. Kemi, jovem que “não pede licença para existir”. Entre as duas, Mayah costura sua identidade. É ali que a peça toca Ruth de Souza, primeira dama negra do teatro brasileiro, que abriu portas sem aplauso garantido. É ali que a emerge inconscientemente diante de uma plateia diversa a frase “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Mayah deixa de se adaptar para pertencer e faz isso porque se adaptou a si. A encenação não grita feminismo negro, ela o vive. E ao viver, transborda.
Por mais de uma hora, Taís expõe o cansaço de uma geração espremida. Tem 40 e se sente acuada entre a luta dos 50 e 60+, que Lélia Gonzales, Thereza Santos, Sueli Carneiro, Leci Brandão e tantas outras construíram quando nem a palavra feminismo negro existia, e hoje se ve pressionada pela urgência sem freio da Geração Z negra. A peça fala disso, mas não é sobre geração. Fala de racismo, colorismo, exclusão, mas não é só sobre raça. Fala de mulher, mas não é panfleto nem manifesto feminista. É essencialmente sobre a dúvida. Sobre acordar num país que vende inclusão em powerpoint enquanto concentra poder como nos tempos da Casa Grande. A hipocrisia dói mais que o silêncio.
Yara de Novaes imprime um ritmo que não dá folga, porque a vida também não dá. A ancestralidade vem no som. Dani Nega assina a direção musical e, com Layla na kora africana, lembra que a diáspora tem trilha. Aquela harpa ancestral, pouco conhecida aqui, costura o Atlântico no palco. É bonito e é político. Porque num Brasil que troca livro por celular e estuda por resposta pronta de IA, ouvir uma kora ao vivo é ato de desobediência. É dizer que memória não cabe no algoritmo, aliás lembrado na súplica da atriz no início do apresentaçao: Por favor desliguem seus celulares durante o espetáculo! Tempos difíceis, onde até falar o óbvio parece uma súplica.
Mudando de pele é a encenação mais honesta das nossas dúvidas hoje. Mostra uma sociedade adoecida, solitária, viciada em relatórios que provam o óbvio: maioria sendo tratada como minoria, riqueza nas mãos de poucos, inclusão que não inclui. E ainda assim, há esperança. Porque Mayah escolhe. Porque Taís escolheu. Porque três mulheres negras, uma quarta de 90 anos no imaginário das nossas mães e avós esta presente conectada a neta da Geração Z, onde todas dividem as falas sem pedir desculpa. Fazendo valer a célebre frase de Angela Davis que diz “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.
No fim, o que fica não é tese. É pele arrepiada. É a certeza de que autoconhecimento é uma revolução íntima com efeito coletivo. Taís Araújo, autêntica representante de uma geração que não quer mais caber, entrega o corpo à cena e devolve a pergunta para nós: que pele você precisa abandonar para, enfim, se reconhecer? A peça não dá a resposta. Dá o caminho. E às vezes, o caminho é tudo o que precisamos para não desistir nos dias de hoje.
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