Na pele com Taís, a atriz fala com exclusividade a RAÇA

Quantas vezes foi preciso silenciar partes de si para caber em espaços que nunca pareceram realmente seus? É a partir dessas inquietações que nasce “Mudando de Pele”, texto da autora inglesa Amanda Wilkin que ganha montagem brasileira sob direção de Yara de Novaes. O espetáculo marca o aguardado retorno de Taís Araujo aos palcos e […] O conteúdo Na pele com Taís, a atriz fala com exclusividade a RAÇA aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Na pele com Taís, a atriz fala com exclusividade a RAÇA

Quantas vezes foi preciso silenciar partes de si para caber em espaços que nunca pareceram realmente seus? É a partir dessas inquietações que nasce “Mudando de Pele”, texto da autora inglesa Amanda Wilkin que ganha montagem brasileira sob direção de Yara de Novaes. O espetáculo marca o aguardado retorno de Taís Araujo aos palcos e revela uma fase madura da atriz, que há anos busca narrativas centradas em mulheres. Especialmente mulheres pretas, para além da dor e da sobrevivência.

A peça dialoga com questões universais, mas sem perder a profundidade das experiências individuais. “Estou há anos em busca de um texto que fale sobre histórias de mulheres e mulheres pretas que não passe pela questão da sobrevivência ou da dor. ‘Mudando de Pele’ é uma reflexão com temas universais, que dialoga com o público em geral e com a artista que sou”, afirma Taís.

Com uma encenação dinâmica e sensível, Yara de Novaes, ao lado da diretora assistente Ivy Souza, constrói um espetáculo que rompe com a ideia tradicional de solo. No palco, Taís é acompanhada por duas musicistas: Dani Nega, que também assina a direção musical, e Layla, responsável por executar ao vivo instrumentos como a kora africana — uma harpa ancestral pouco difundida no Brasil, mas profundamente simbólica na cultura da África Ocidental. O resultado é um “solo coletivo” que pulsa em ritmo próprio e amplia as camadas da narrativa.

 

Quantos incômodos sentiu por não se sentir pertencente?

Na história, Taís interpreta Mayah, uma mulher prestes a completar 40 anos que decide romper com estruturas que a aprisionam — um trabalho sufocante, um relacionamento desgastado e expectativas sociais que não fazem mais sentido. Esse gesto inicial de ruptura desencadeia uma travessia intensa de autoconhecimento.

Livre das antigas amarras, Mayah se vê diante do desafio de reconstruir sua própria existência. No caminho, cruza com figuras femininas que ampliam sua percepção de mundo: Mildred, uma senhora jamaicana de 90 anos com uma trajetória marcada pela luta por direitos civis, e Kemi, uma jovem que ocupa o espaço com coragem, sem pedir permissão para existir. Entre encontros e desencontros, Mayah se transforma — e, aos poucos, passa a reconhecer seu valor e identidade.

A transformação da personagem também se manifesta visualmente. O figurino, assinado por Teresa Nabuco, funciona como extensão emocional da narrativa: começa desalinhado, quase desconfortável, e evolui em camadas até refletir um estado de maior inteireza. É a materialização do processo de “mudar de pele” — não como abandono, mas como revelação.

Qual o significado de se reconhecer em sua pele e identidade?

Mais do que uma história individual, “Mudando de Pele” propõe um espelho coletivo. A montagem convida o público a refletir sobre pertencimento, identidade e liberdade — temas que atravessam diferentes vivências, mas ganham contornos ainda mais potentes quando colocados sob a perspectiva de uma mulher preta em processo de reinvenção.

Este é também um momento simbólico na trajetória de Taís Araujo. Com mais de três décadas de carreira, passagens marcantes pela televisão, cinema e teatro, a atriz retorna aos palcos em seu primeiro solo carregando uma bagagem artística sólida e um desejo claro: contar histórias com impacto social, mas também com novas possibilidades de existência.

“Mudando de Pele” não fala apenas de transformação. É, em si, um ato de transformação. Uma travessia que começa no palco, mas ecoa em quem assiste.

Bate-papo com Taís Araújo

Mayah questiona pactos invisíveis que nos moldam. Qual foi o acordo social que você precisou “trair” para continuar sendo você mesma?

TAÍS ARAÙJO: Ah, eu acho que vários, né? Mas eu acho que o primeiro é tentar saber quem se é, apesar das máscaras sociais que a gente constrói e usa, né?

Sendo símbolo de representatividade para muita gente, existe alguma parte de você que se sentiu apagada justamente pelo peso de representar tantas pessoas?

TAÍS ARAÙJO: Pois é, eu sei que eu sou símbolo para muitas pessoas e eu acho que sou coisa mais linda do mundo. É, mas o que eu acho não me sente apagada de jeito nenhum, acho lindo, adoro essa responsabilidade, tem um prazer, inclusive as minhas escolhas profissionais, muitas partem desse lugar de entender que eu vou comunicar para muita gente e o que que eu deveria falar para essas pessoas. Estou à serviço, né, de uma pauta que para mim é muito importante, porque é uma pauta identitária. Ela faz parte da minha identidade. Então, o que que eu faço? Apagada não. Acho que eu me sinto fortalecida. Eu me sinto fortalecida.

Mulheres negras muitas vezes aprendem a sobreviver antes mesmo de aprender a desejar. Em que momento você sentiu que deixou de apenas resistir para começar, de fato, a desejar?

TAÍS ARAÙJO: Eu acho que o meu desejo de novas narrativas é isso. Tipo, não pode ser pela sobrevivência, é pelo desejo, é que vai mover a gente, não é a sobrevivência. Aí se sacou tudo. A minha pesquisa de novas narrativas é isso, o que vai mover a gente é o desejo, é o que deve mover todo o ser humano e não a sobrevivência.

Se “mudar de pele” significasse abandonar uma versão admirada de Taís que o público ama, mas que hoje te limita, qual pele você teria coragem de deixar para trás?

TAÍS ARAÙJO: Eu não me sinto limitada. Engraçado, né? Eu faço o que eu quero, do jeito que eu quero, da maneira que eu quero. Ou talvez eu nem perceba isso. Ó aí, você construindo um triplex na minha cabeça…

Você acredita que o sucesso pode, às vezes, ser uma forma sofisticada de adaptação ao sistema que queremos romper? De que forma sentiu esse conflito na própria trajetória e como lidou com ele?

TAÍS ARAÙJO: É, o que que é sucesso? Eu acho que essa é a pergunta, né? O que que significa sucesso para uma pessoa? Para mim, significa ter os meus desejos, eu andar de acordo com os meus desejos, eles serem realizáveis, eu consegui realizá-los, os profissionais e eu também consegui ter tempo de viver plenamente tudo que eu conquistei.

E tempo em família, com os meus filhos, com os meus amigos, sair, jantar, viajar, ter tempo também, não só trabalhar. E é isso, fazer as minhas coisas, ter liberdade de fazer as minhas coisas, contar as minhas histórias da maneira que eu acredito. Mas isso vai depender muito do que é sucesso. O sucesso é subjetivo, né? Para cada um, ele significa uma coisa.

Mayah se transforma no encontro com outras mulheres. Alguma conversa entre mulheres negras mudou radicalmente sua visão sobre si mesma, sua identidade?

TAÍS ARAÙJO: O que me mudou completamente foi ler mulheres negras. Ler Suely Carneiro, Cida Bento, Toni Morrison, Bell Hooks. Isso me construiu, isso mudou, isso constrói e solidifica e é E como eu fui ler essas mulheres muito tarde, isso é o que tá na construção da mulher que eu quero ser.

Existe uma herança emocional das mulheres negras (força, silêncio, autocontrole) que costuma ser celebrada. O que nessa herança você hoje gostaria de ‘desaprender’ e por que?

TAÍS ARAÙJO: Força, né? Ai, eu faço uma força para as coisas acontecerem. Força. Força, não queria. ‘Ah, ela é forte’. Eu não sou nada disso. Mas eu sei que eu não sou também, mas tem uma coisa da do olhar que a pessoa tem sobre o outro, né? É, também tem isso.

Se você pudesse fazer uma pergunta para a Taís que começou a carreira há 30 anos sobre raça, feminilidade e liberdade o que perguntaria? E qual seroa a resposta?

TAÍS ARAÙJO: O que é ser livre para você? O que que é liberdade para você? Porque eu achava que eu era livre, mas agora eu vejo que eu sou livre agora.

Hoje eu sou livre e e fazer essa peça desse jeito com as pessoas que eu tô fazendo é que me entender o sentido da liberdade

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