Ataque a ambientalistas na Chapada Diamantina expõe disputa por mineração e ameaça à segurança hídrica na Bahia

Casal que atua na proteção da Serra da Chapadinha sofreu atentado de homens armados em meio à pressão pela criação de uma unidade de conservação na região, alvo de interesses minerários e conflitos fundiários

 Ataque a ambientalistas na Chapada Diamantina expõe disputa por mineração e ameaça à segurança hídrica na Bahia

Por Catiane Pereira*

Na madrugada do dia 1º de maio, um ataque armado contra ambientalistas na Serra da Chapadinha, no sul da Chapada Diamantina, interior da Bahia, chamou a atenção para a escalada da violência em territórios disputados por interesses ligados à mineração, grilagem de terras e especulação imobiliária.

Os ambientalistas Alcione Corrêa e Marcos Fantini, proprietários da pousada Toca do Lobo, em Itaetê (BA), relataram ao portal ((o))eco ter sido rendidos por cerca de seis homens encapuzados e fortemente armados, que invadiram o local, destruíram equipamentos, incendiaram estruturas e fizeram ameaças de morte. Segundo o casal, os criminosos afirmaram que eles estariam “atrapalhando o progresso” da região ao defenderem a criação de uma unidade de conservação ambiental na Serra da Chapadinha.

O local atacado funciona como posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – reconhecimento concedido pela UNESCO no fim de 2024 –, e se tornou símbolo da mobilização popular “Salve Serra da Chapadinha”, que reúne ambientalistas, comunidades locais, pesquisadores e movimentos sociais em defesa do território.

A proposta defendida pelos movimentos é a criação de um Refúgio de Vida Silvestre (REVIS), categoria de unidade de conservação de proteção integral que impediria empreendimentos de alto impacto, como a mineração. O processo tramita no governo da Bahia e vem sendo acompanhado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Além da relevância ambiental, a Serra da Chapadinha é considerada estratégica para a segurança hídrica da Bahia. A região abriga nascentes e áreas de recarga que abastecem Salvador e dezenas de municípios baianos, motivo pelo qual ambientalistas a definem como a “caixa-d’água” do estado.

“Em pleno colapso climático, nós estamos lutando pela água de milhões de pessoas”, afirmou Alcione Corrêa em entrevista ao portal ((o))eco após o atentado.

Segundo o relato do casal, os invasores chegaram durante a madrugada atirando para o alto e tentando incendiar o quarto onde eles dormiam. Os ambientalistas foram obrigados a sair do imóvel sob ameaça de armas de fogo. Computadores, celulares, HDs, rádios e sistemas de energia solar foram destruídos.

Sem meios de comunicação, os dois deixaram a propriedade por uma trilha ao amanhecer, temendo uma nova emboscada na estrada que dá acesso ao local.

O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil da Bahia. O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público da Bahia (MPBA) também foram acionados.

Pressão de mineradoras e conflitos territoriais

O atentado ocorre em um contexto de avanço da mineração sobre áreas ambientalmente preservadas da Chapada Diamantina. Embora a região seja conhecida nacionalmente pelo turismo ecológico e pelas paisagens naturais, comunidades tradicionais denunciam o crescimento da pressão de empresas mineradoras sobre territórios rurais, quilombolas e áreas de proteção ambiental.

Reportagem da emissora alemã Deutsche Welle Brasil mostrou que jazidas de minério de ferro, ouro e quartzo despertaram o interesse de conglomerados internacionais na região sul da Chapada Diamantina.

Comunidades quilombolas denunciam que projetos minerários vêm sendo conduzidos sem consulta prévia às populações afetadas, apesar da garantia prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário.

No Quilombo Bocaina, em Piatã (BA), moradores relatam impactos provocados pela atuação da empresa Brazil Iron, como explosões, rachaduras em casas, poluição da água, poeira constante e degradação ambiental.

A agricultora e liderança quilombola Catarina Oliveira da Silva afirmou à DW que rejeitos da mineração chegaram a atingir fontes do rio Bebedouro, afluente do Rio de Contas. Em 2022, após denúncias de irregularidades ambientais, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) determinou a paralisação temporária da mina operada pela empresa.

Para organizações do campo e movimentos socioambientais, o episódio na Serra da Chapadinha reflete um padrão histórico de violência contra defensores ambientais e populações tradicionais em áreas cobiçadas economicamente. Em nota enviada ao ((o))eco, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) classificou o atentado como “ato de extrema violência e intimidação”.

Dados divulgados pela CPT apontam que a Bahia registrou, em 2025, 116 conflitos por terra e 19 conflitos por água. Segundo a entidade, indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais estão entre os principais grupos atingidos pela violência no campo.

Organizações ambientais, lideranças indígenas e parlamentares cobraram investigação rigorosa e proteção aos defensores ambientais da região. Entre as manifestações públicas de apoio está a do líder indígena Ailton Krenak, que pediu a identificação imediata dos responsáveis pelo ataque.

*Com informações do portal portal ((o))eco